KALI-MA!
Então chegamos a esse que talvez tenha sido o lugar mais exótico dentre todos os lugares exóticos que visitamos aqui, nos confins do mundo. Multidões vem pra ca buscando a simples presença fisica dessa mulher que eles crêem ser uma espécie de santo. Numa noite normal de Darshan centenas de pessoas se acumulam no grande auditório em busca de um breve contato fisico, um caloroso abraço de sua guru. Eles são em sua maioria Indianos que falam Malayalam, a lingua oficial do Kerala, e prescrevem a fé Hindu. Mas há também Muçulmanos, Católicos, Ateus, pessoas da india inteira, do mundo inteiro, falando uma verdadeira torre de babel de línguas. Não seria arriscado dizer que esse é o abraço mais poderoso do mundo: um abraço que ja trouxe milhões para uma pequena cidade no interior de um pequeno estado da India. Um abraço que alimenta mais de dois milhões de pessoas por ano. Um abraço que estimula os homens a trabalhar em auxilio uns dos outros. Senhoras e senhores, esse é o abraço de Amma.
Confesso que não conheço muito bem sua história. Como todo homem santo na India há dados em sua biografia que eu prefiro nem observar, pois o cético em mim fica impaciente. O que sei sobre essa simpática senhora foi o que aprendi conversando e andando lá pelo Ashram, o que certamente não é muito, mas me marca com profunda impressão. Assim como quase tudo nesse pais esse lugar me gera sensações profundamente paradoxais. Pois se por um lado vejo um trabalho sério e dedicado para com o ser humano ao lado, por outro vejo uma estranha e abobalhada forma de fanatismo.
Qual é o poder, afinal, dessa tal Amma? O que é que move tantas pessoas pra cá? O que as traz para esse remoto e poderoso lugar? Do alto do prédio de quinze andares onde ficamos hospedados e que abrigava mais de mil pessoas eu contemplava essa pergunta. Abaixo de mim o violento e escuro mar do kerala atingia o aterro de pedras da horrorosa praia me lembrando da violência que a experiência do Atma, ou do inconsciente, chame-o como quiser, pode as vezes ter. Lá, a gentileza com que Amma trata todos é inspiradora e se há algo de violento é o seu poder de destruir aquilo que lhe parece injusto no mundo. Por isso não há paradoxo com as constantes imagens de Kali, deusa Hindu da destruição. Mesmo que seja uma gentil Mãe, Amma está muito preocupada em exterminar certas coisas desse mundo.
Estar presente num lugar onde a maioria das pessoas vai para praticar Guru-Yoga é bastante estranho para mim. Meu individualismo radical acha difícil de aceitar essa prática tão antiga e tradicional da cultura Indiana. Yoga significa União, Abraço, o fim da separação entre a consciência individual e a consciência divina. Guru é um professor do espirito, um sujeito que segundo a tradição Hindu já realizou sua própria divindade pessoal, tornou-se iluminado, e expressa isso para o mundo. Na Guru-Yoga o Guru é usado como uma escada para que o discípulo realize o mercurial trabalho de encontrar dentro em si mesmo a divindade. Ele deve servir como um canvas, uma tela sobre a qual o discipulo projete sua própria divindade interior. Até que um dia você teoricamente retira a superficie e a imagem continua lá. Essa é a teoria, é claro. A prática me parece sempre um pouco mais complicada.
Amma, a Guru, é um Avatar da Deusa. Ou seja, ela é uma encarnação da grande Mãe que por aqui tem muitos aspectos e muitos nomes: Shakti, Parvati, Kali, Durga, Chamundi, Saraswati, Lakshmi, BhumaDevi, PampaDevi, ChandraDevi e muitos outros. Seu nome significa mãe em muitas línguas, até nas Amas de Leite do nosso português. Ela, assim como toda mãe deveria ser, é acolhedora. E não seria nenhum exagero dizer que sempre cabe mais um no colo dessa Amma. É por isso, por gerar tamanho conforto no coração dos que precisam, que ela é tão popular. As três mil pessoas que habitam seu Ashram estão ali só por isso, para sentir sua incondicional compaixão. E a minha opinião é que algumas pessoas foram tão destratadas e mal amadas ao longo de suas vidas que isso muda-as para sempre. Elas se tornam viciadas na personalidade gentil dessa lider como um junkie se vicia no esquecimento que lhe trazem as drogas. Assim todo o objetivo de tornar-se consciente de seu próprio guru interior torna-se secundário, pois elas tornam-se obcecadas pela figura e não pelo que ela deve evocar.
É claro que no fim das contas o drogado está numa condição muito mais precária do que o discípulo que confundiu seu Guru por deus. Mesmo assim o radicalismo que eles exibem no seu comportamento não torna-se menos assustador para quem olha de fora. Fotos da carismática dama se espalham por toda superficie imaginável - dos altares onipresentes às portas de elevadores e paredes dos pequenos apartamentos. Duas montagens de mais de tres metros de altura com sobretons New Age adornam as laterais do grande palco onde o Darshan é oferecido, e nas TVs gigantes de LCD que o circundam fotos e videos dela são constantemente repetidos. Quando você esta la dentro um violento grau de exposição é inevitável, o que me fez crer que um certo grau de obsessão e fanatismo também é. A quantidade de pessoas que vão morar lá ou largam tudo o que tem e tornam-se renunciantes, dedicando sua vida a espiritualidade vedanta com suas profusões de austeridades físicas, é embasbacante. E o mais incrível é que em sua maioria eles são ocidentais.
Confesso que senti um pouco de medo nos segundos que precederam minha entrada no terreno do Ashram. Pensava comigo: como é que uma pessoa se torna fanática? Que tipo de experiência torna essa a única opção nas suas vidas? Eu não sabia o que encontraria nos dias a frente. Temia talvez encontrar a resposta da pior maneira - me tornando um.
La dentro encontramos o primeiro grupo de Brasileiros com o qual fizemos algum tipo de contato desde que chegamos a india. Eram tres mulheres e um garoto e fora o alivio de finalmente falar um pouco de português o encontrou serviu para nos orientar naquele ambiente tão exótico. O minimo que qualquer deles tinha ficado lá era vinte dias, então eles entendiam as dinâmicas e hierarquias misteriosas do lugar. Foi tão facil que em pouco tempo eu ja tinha formado uma imagem preconceituosa daquilo tudo. Mas aquele lugar tem poder, e o tempo viria a provar as limitações da minha perspectiva.
A principal prática do Ashram é o que eles chama de Seva, serviço comunitário sem retornos. Espera-se de todos os hospedes e residentes que eles dediquem pelo menos uma hora do seu dia à alguma atividade de sua própria escolha. Maria foi lavar roupa pela manhã, já eu optei por algo mais radical. Já que eu ia me mexer que fosse por uma boa causa. Então fui trabalhar com compostagem.
Meu oficio constituia-se na mistura de restos orgânicos (comida em sua maioria) com estrume de vaca e serragem para a formação de uma massa asquerosa que fermenta para um dia se tornar adubo. Era um trabalho nojento e insalubre, para os fortes de espirito e de estomago. Falo assim, tirando onda, mas a verdade é que só durei um dia lá. Gostei do trabalho, de mexer no lixo, mas era um negócio muito fisico e algo em mim não aguentou. A medida que o dia passava fui me tornando cada vez mais fraco, até que quando a noite chegou ardi em febre. Nos delirios noturnos que se seguiram eu imaginei os mais diversos motivos para minha convalescência: que tinha contraído malaria ou dengue, que tinha contraído algum doença no lixão, que estava sendo "castigado" por minhas idéias heréticas sobre aquele lugar, que estava sendo purificado de antigos acúmulos interiores e muitas outras coisas que já não me lembro. Foi uma longa noite. Do lado de fora eu ouvia o burburinho constante do Darshan, que só acabou as tres e meia da manhã encerrando-se num vazio que preencheu toda a propriedade.
Eu obviamente não pude receber o famoso abraço essa noite. No dia seguinte também não pude mais trabalhar, pois mesmo que estivesse curado dos súbitos sintomas, não me sentia forte o suficiente para emprestar-me para nada. Descansei o dia todo, ao fim do qual já estava apto para receber o abraço da santa mulher. Enquanto esperava na fila tive uma sensação de enfim estar rendido, como se eu não conseguisse mais achar aquilo tudo uma palhaçada. Eu via as caras das pessoas, pessoas comuns que iam lá falar com ela, e entendia que nem tudo ali era sobre a horda de radicais renunciantes e pessoas desequilibradas mentalmente. A simplicidade dos sujeitos que ali estavam, apenas em busca de um pouco de carinho e sabedoria, me desarmou. Ou talvez aquele circo todo que se montou em volta dela me atrapalhou a visão.
Enfim, depois de mais de duas horas e meia na fila, chegou minha vez. Enquanto aguardava os preparativos uma velha muito antipática me perguntou minha lingua e depois me bombardeou com uma serie de instruções sobre como abraçar a Amma. "Não se apoie sobre ela, se apoie no braço esquerdo da sua poltrona, não fique tempo demais, não fale nem pergunte nada, ela vai te dar o abraço, não tente abraça-la". As pessoas que a cercavam pareciam tão histéricas que muitas vezes a própria Amma tinha que intervir para que pudesse ter o minimo de intimidade que seus segundos com cada um permitiam.
Seus braços me envolveram, eles eram gordinhos e estavam cobertos por um refrescante pano branco. Foi a primeira e talvez a única mulher indiana que ja abracei na minha vida. Ela cochichou no meu ouvido uma tentativa desajeitada de português "Meu querido, seja feliz! Meu querido, seja feliz! Meu querido, seja feliz!" assim, três vezes, exatamente da mesma forma que fez com a Maria logo depois. Quando seus braços enormes me largaram eu pude ver seus rosto sorridente e então eu percebi o que acontecia com ela. Amma estava tentando. Tentava com todas as suas forças. Dava sua vida para essa tentativa de ensinar aos outros um pouco de gentileza e compaixão, mesmo que a grosseria de seus discípulos mais próximos deixasse bem claro que nem todos ali estavam ouvindo. Mas o que uma velha senhora pode fazer a esse respeito além de continuar tentando? Dando sua vida para que os homens possam ver que é possível dar sua vida por algo que não seja mesquinho interesse. Foi então que uma realização das mais profundas amanheceu em mim: foi com essa mulher que muitos acreditam ser Deus(a) que eu aprendi uma das minhas maiores lições de Humanidade.
encarnação da fofura
Nossa João, não há nada a dizer, um abraço pra você! Meu filho querido...Bjs
ResponderExcluirQue braço comprido o da Amma que tem o dom de tocar o coração do coração do João que já vive cheio de amor. Pé na estrada e fé no outro...enquanto isso...
ResponderExcluir...mantenho os braços esticados na direção Ásia, esperando a minha vez na fila do tempo.
meu querido, seja feliz! não precisava ir tão longe pra ouvir isso, né? abraços de fofinhas aqui tb têm muitos.
ResponderExcluirvcs me perdoem minha obscuridade mental, mas o q vc narrou é exatamente o êxtase de qq religião (não gosto de nenhuma aliás); nada diferente dos católicos da praça de são pedro esperando pela benção do papa!
para mim isso é uma questão ideológica: por q motivo vcs acreditam ou são afins a esse misticismo hindu e não são em relação ao catolicismo? sinceramente eu ainda não entendi.
bjs e abraços fofinhos da sua titia e, meu querido e minha querida, sejam felizes! mesmo aí na índia
xii, joão e maria, escrevi e me arrependi... acho q fui meio grossa.
ResponderExcluirdesculpem meu obscurantismo místico mas simplesmente não possuo o alcance etéreo de vcs; acredito q podemos enxergar o outro e abraçá-lo (concreta ou metaforicamente) sem o intermédio da religião.
era só isso.
bjs
titia, a descrente e indelicada com os hindus
Titia, em absoluto seu comentário me ofende ou me parece agressivo. Primeiro gostaria de dizer que não acredito em nada, PORÉM também não desacredito em nada. Em vez dos latidos dos DOGmas de uma crença fixa prefiro os miados dos CATmas (sacou o anglo-trocadilho) de uma descrença movel. Isso, eu acredito, é a diferença entre Religião e Misticismo, pois se eu não vi com meus próprios olhos não vou acreditar, e mesmo vendo com eles ainda me mantenho numa postura de distanciamento que acredito saudavel, você deve saber que nós constantemente eganamos a nós mesmos.
ResponderExcluirNão sei se me fiz entendido no meu texto, mas de forma alguma eu acredito na religião hindu, muito longe disso. Tenho calafrios com suas práticas que degradam o corpo como uma parte inferior numa suposta dualidade que eu questiono desde o princípio. Mesmo assim ela me fascina muito mais do que a católica, mas acho que isso no fim das contas é uma questão de inclinação estética, e do fato de que eu fui criado por padres, então acho eles absolutamente entediantes. A onda kitsch desse paganismo distante é divertidissima!
Certamente devemos enxergar e abraçar o outro sem o intermédio da religião, alias, aqui na india e lá no Ashram as pessoas não tem esse hábito - lá dentro eu e maria não podiamos nem nos encostar e isso nos causava um desconforto terrivel, obviamente. Isso é uma coisa triste na minhas perspectiva, mas quem sou eu pra questionar as práticas milenares de uma cultura. Só sei que pessoalmente prefiro o calor da minha!
Mas há uma pequena diferença aqui. Nenhuma instituição declarou Amma como uma Santa. Ela teve uma experiência mística que mudou sua vida e comunicou isso ao mundo. Como ela era uma Indiana tradicional do interior do Kerala essa experiência se encaixou dentro dos padrões da Religião Hindu, mas fosse em outro lugar ela poderia ter outro "template" ou talvez nunca ter acontecido simplesmente. Seu carisma fez o resto do trabalho de trazer as multidões aos seus pés. Isso é muito diferente da apatia daqueles papas, tão velhos quanta sua decrépita e corrupta instituição. O Hinduísmo é uma fé descentralizada, e nesse sentido pelo menos ele me seduz mais do que a rigidez católica. Mas só nesse sentido mesmo, por que em muitos são quase idênticos. Não sei se estou certo, mas acho que Amma também trabalha mais que esses Papas. O ambiente do Ashram é bastante "comunista" apesar dos sobretons religiosos. Todo mundo trabalha e se ajuda.
Imagino que a saudade esteja apertando, aqui também é o caso. Mas não foi para tomar esse abraço que viemos até a India, viemos até a India por que ela é do outro lado do mundo. Viemos até a india por uma profusão indescritivel de motivos, alguns dos quais estão relatados nesse blog, outros nem tanto. Então os abraços de fofinhas daí não teriam o mesmo sabor. Escrevendo esse texto me lembrei as vezes do Zizek, por que li uma declaração dele dizendo que era um Católico ateu. Ele dizia que quando jesus veio a maior lição que ele ensinou foi a afirmação da comunidade dos homens, um pouco como se ele disesse "não há deus, mas há nós e podemos nos ajudar". Foi um pouco do que senti lá no ashram, ainda que não seja o que todos sintam. Mas sinceramente, fodam-se todos!
Beijos, e nos vemos em um mês!
O dia a dia aqui está fervilhando. Outro dia um musico saiu na porrada com o Eduardo Paes, nosso "imprefeito", num restaurante japa no Jardim Botânico. Deu no New York Times e tudo. Fortes emoções da vida ocidental lhes aguardam. Vida que segue. Venham!!! A vida é bela aqui também... acho...rsrsrsrsrs Bjs Deo
ResponderExcluirCaramba, vai escrever bem assim la na...
ResponderExcluirINDIA!!! Belo relato, belas experiencias e desculpa a redundância, muitas saudades!!!