Durante as
últimas três semanas estivemos no paraíso e no inferno, e o nome desses dois
lugares é Índia. Tudo começou quando deixamos Bangkok, nos idos dias de vinte
de abril de dois mil e treze. Chegamos a enigmática Calcutá, casa da famosa
Madre Teresa e de... mais nada? Pelo menos foi o que achamos quando chegamos
lá. Quando saí do aeroporto, cansado da fanfarra turistica pela qual haviamos
passado no último mês e meio, proferi: "Quer saber, fodam-se esses asiáticos,
eu prefiro a Índia, pode me trazer a sujeira, a pobreza, a brutalidade!".
Parecia que essa terra poderosa estava disposta a por a prova minha afirmação.
Kolkatta, como ela é conhecida agora, foi porrada atrás de porrada. Cada
tentativa nossa de fazer qualquer coisa, de nos movimentarmos, de realizar
tarefas básicas e necessárias, era saudada com as mais infinitas dificuldades.
Ficamos lá por três dias, acreditávamos que seria tempo o suficiente para
realizar nossas pequenas obrigações (enviar algumas coisas pro Brasil via
correio aéreo e conseguir um chip de celular para usar internet) e conhecer a
cidade. Grande engano. Demoramos três dias completos para realizar essas duas
simples tarefas, ao final do qual estávamos completamente exaustos. Da cidade
nada conseguimos ver, mas a verdade é que não lamentamos muito isso.
Decadence sans elegance
Kolkata
parece um pouco uma versão perversa e ainda mais decadente de Cuba, ou pelo
menos da imagem que a desconhecida Havana ocupa no meu inconsciente. A
impressão que se tem ali é a de que todo e qualquer investimento em aparelhagem
urbana foi encerrado no fim da década de sessenta. Os taxis fedem a fusca velho
- gasolina com ferrugem - e são todos o mesmo modelo, um banheirão muito do
clássico produzido pela HM, a Hindustan Motors. Os onibus são de madeira, não
tem janela, e suas paredes estão se despedaçando. Nas ruas não há calçadas, e
quando há você deseja que não houvessem. A pobreza abunda, a miséria não é só
financeira, sente-se acima de tudo na completa falta de educação dos seres que
habitam aquele espaço. Eles se tornaram totalmente embrutecidos pela fuligem,
pelo barulho, pelo sujeira. Kolkata é a segunda cidade que mais produz lixo na
india, são mais de oito mil toneladas por dia. Mais do que qualquer outra coisa
o que mais se depredou nesse ambiente violento foram as relações humanas. No
auge da Babel que é o transito local, tentávamos nos localizar em busca da
agência dos correios na central Park
Avenue. Nosso taxista não entendia nada do que dizíamos e parecia não ter
muita paciência para a violenta barreira de linguagem que nos separava. Numa
tentativa de achar o lugar (que me parecia que ele deveria saber de cor já que
era a principal agencia de correio da cidade) um outro taxi passa e arranca
fora seu para-choques na maior violência e vai embora, como se nada tivesse
acontecido. O homem xinga muito, esta revoltado, mas a bem da verdade não há
nada que ele possa fazer no meio daquele caos. Como uma pessoa assim pode
exibir qualquer tipo de gentileza perante o próximo?
Esse sujeito, na verdade, era muito simpático.
Finalmente
partimos, e muito felizes, nem a casa da Madre, o único ponto de interesse do
qual ouvimos falar, conseguimos ver. Azar, pensamos, mas a bem da verdade queríamos
ver aquela cidade pelas costas o mais rápido possível, e foi o que conseguimos.
Depois que chegamos a Havelock, no paradisíaco arquipelago de Andaman,
conhecemos um cidadão de Calcutá que nós disse que a cidade é um dos pontos
culturais mais importantes da Índia. Uma cidade de teatro e música, a antiga
capital da Índia. Pena que a dureza de seu ambiente não permitiu que isso ficasse visível. Vida que
segue.
Mas por que foi mesmo que resolvemos
ir para esse lugar infernal? Ah sim! Andaman Islands! Lá no dia em que nos deu
a louca no Laos, quando decidimos que aquela viagem não era nada do que
desejávamos, olhamos no mapa e pensamos: qual é o local mais isolado que
podemos ir? Para onde é que ninguem mais vai? Onde é que poderemos ficar
tranquilos, lendos, escrevendo, meditando, estudando... em paz?! Vimos um
arquipélago no meio do oceano indico - que porra de lugar é esse? Ilhas de
Andamão. Me lembrei da referência do amigo Nicola, e na hora decidimos: é pra lá que vamos. Não
poderiamos ter acertado mais.
Podiamos?
Como sempre nesse país louco, não
chegaríamos ao paraíso sem sofrer um pouco antes. Então depois de Kolkatta
chegamos a capital da ilha para descobrir um outro lugar simplesmente bizarro.
Port Blair é uma cidade pequena, cem mil habitantes, e da uma sensação mais ou
menos parecida com o centro de Madureira adicionada a uma vibe pescador muçulmano. Não há muito o que fazer por lá, é um
lugar pobre e cinza e o melhor restaurante da cidade é uma bosta completa. Não
adianta espernear, o único motivo para se estar ali, ao menos que você seja
obrigado, é para alcançar as outras ilhas. Mas isso também não é tão fácil
quanto pode parecer. Chegamos lá no sábado, e apesar do ferry funcionar todos
os dias e do barco no dia seguinte não estar cheio, a bilheteria só funcionava
nos dias de semana. Então no domingo, desesperados com a possibilidade de ter
que passar mais um dia na insossa Port Blair, acordamos as quatro e meia da
manhã e tivemos que subornar um funcionário do porto local para conseguir
entrar no último segundo na barca para o principal destino do arquipélago: a
ilha de Havelock.
Nesse pais as coisas estão de pernas pro ar...
Enfim, chegamos. Aqui não havia mais
nada que poderíamos querer. Posso dizer sem medo que esse foi o ponto alto da
nossa viagem. De todos os lugares incríveis que conhecemos esse foi o maior!
Uma ilhota que se cruza de moto em meia hora com aguas azul turquesa
cristalina, um coro constante e transcendental de cigarras, coqueiros e uma
mata que lembrava nossa saudosa Mata Atlântica, misturando coqueiros com
arvores de todas as espécies. Aqui vivemos como reis por doze dias,
interrompidos apenas por uma curta viagem a ilha vizinha, a desértica Neil
Island. Foi a primeira vez que fizemos amigos, muitos amigos, nessa viagem.
Tornamo-nos seres ativamente sociais em Havelock, buscando interação, bebendo, aproveitando a
vida. Conhecemos pessoas maravilhosas, escrevemos, pintamos, dormimos e lemos.
Tudo sem a pressão de conhecer nada, ainda que conhecendo tudo naturalmente.
Ganhamos até uma trupe de simpáticos cachorros que nós seguia para qualquer
lugar que fossemos da ilha: Caolha, Folgado, Pereba e A Simples. Confesso que
nossos pulguentos mascotes foram uma difícil lição de desapego no dia em que
fomos embora. Mas tudo foi, aquele lugar era muito incrível.
Na foto: eu, caolha em primeiro plano, e folgado se coçando ao meu lado
Mon amour explorando a vida marinha local...
Mas é claro que nem tudo são flores
na ilha. O lixo é uma questão muito séria em Andaman, e a quantidade de
plástico assusta qualquer pessoa consciente da seriedade dessa questão. É um
xadrez brabo. Não há nenhum tipo de consciência ambiental, os turistas são a
única fonte de informação para a população local. A falta de estrutura
governamental dificulta muito qualquer tentativa de tornar as ilhas mais limpar
do que estão agora. Se você reclama do plástico na praia com os locais eles os
queimam em fogueiras enormes e muito fedidas, se você os recolhe não tem onde
enfia-los, então não há muito o que fazer além de observar o lixo se acumular
na sua frente e rezar para que alguém um dia tenha o bom senso de fazer algo a
respeito. Em Havelock, a ilha maior, já estávamos bastante impressionados. Mas
foi quando chegamos a Neil Island que caiu a ficha. Suas praias oceânicas
cheias de corais tem faixas de areia muito pequenas que já estão totalmente
tomadas pelo lixo. É um paraíso indescritivel entregue ao descaso, rumo a
completa destruição.
Falando em destruição: arvores derrubadas pela tsunami de 2008,
que afetou violentamente as ilhas.
Nossa viagem para Neil Island marcou
um momento de total isolamento no ponto cronológico central da nossa estadia
nas ilhas. Nunca vi um lugar tão vazio na minha vida inteira. Lá já não é um
ponto muito popular, mas na baixa estação então se torna terra de ninguém. A
população da ilha é de três mil habitantes e ela tem menos de sete km de
extensão. Andando pela única estrada da ilha raramente se esbarra com alguém.
Há pouquíssimas motos e menos carros ainda, certamente não passam de cem.
Alugamos uma moto, mas conseguir combustível se revelou muito difícil, a oferta
na ilha é bastante limitada. Se você quer almoçar deve fazer seu pedido com pelo
menos três horas de antecedência no único restaurante que estava aberto, o Blue
Sea. A comida não era lá essas coisas, mas acabamos fazendo amizade com o
enigmático chefe - Balai - ainda que até hoje não tenhamos certeza se ele
curtia ou detestava nossa presença lá. Por outro lado nosso hotel custava a
bagatela de 150 rupias por noite, meros três dólares. É claro que se tratava de
uma cabana modesta, com as paredes abertas e vazadas, mas por seis reais quem
está checando? Nós não estávamos, então depois de três dias começamos a receber
a visita de um simpático roedor, pena que a Maria não gostou muito dele.
Detestou na verdade, então voltamos para Havelock Island.
A bela Neil Island...
A horrenda Neil Island.
A verdade é que já havíamos deixado
Havelock originalmente por causa de visitas semelhantes. Um pequeno camundongo
começara a visitar nossa cabana e depois de alguns dias resolvemos que era
razoável que seguíssemos em frente. Mas a mesma questão nos trouxe de volta a
primeira ilha. A verdade é que não conseguimos fugir dos ratos em Andaman, mas
que isso nunca foi um problema muito grande pra mim, problema foi quando
apareceu uma barata dentro do meu saco de dormir. Isso sim foi um problema. Mas
o que fazer quando se está num lugar onde a natureza é tão poderosa? Não há
como fugir dos animais, nem do sol, nem do calor. Graças a Ganesa.
Nem só de animais desagradaveis é feita a ilha
aqui, as conchas se mexem!
Foi muito difícil de ir embora. Em
muitos sentidos. Chegamos novamente a Port Blair com nossos corações apertados
de deixar aquele paraíso. Eu estava verdadeiramente tomado por uma nostalgia
profunda, sempre que vivemos algo assim tão maravilhoso pra mim é igual. É
muito fácil se desapegar de coisas desagradáveis, certo? Mas não foi só isso. Ao chegarmos na capital
das Andaman descobrimos que a empresa aérea tinha feito uma confusão e nossas
passagens não tinham sido agendadas. Então se aprofundou o drama, além da dor
de partir tivemos o desconforto de ter que passar duas noites naquele lugar
arido, uma cidade cara e minima onde a Lan House com internet estilo conexão
discada é o lugar mais interessante de se estar, e ainda tivemos que pagar duas
vezes mais caro pela nossa passagem de volta, ja que ela foi comprada na última
hora! Mas quer saber? Pouco importa, porque valeu a pena. Certamente valeu.
Qualquer coisa teria valido a pena pelos dias mágicos que passamos em Andaman e
Nicobar.
Pra não esquecer jamais.
SENSACIONAL!
ResponderExcluirai, eu quero a caolha,o folgado, a pereba e a simples!
ResponderExcluirdesejo a vcs, realmente, o encontro com uma cama limpa, num quarto limpo e ventilado, com boa comida e melhor ainda bebida!
bjs
titia maria BRASIL, chega de ÍNDIA!
Que delícia de leitura!
ResponderExcluirA incrível Índia, impressiona e é indispensável. Viajando junto nesse blog passaporte carimbado pro lado de lá do mundo. Adorando.
ResponderExcluirCaramba!!! Que viagem...em todos os sentidos!! Isso é uma saga de experimentos! Estou exausto por vcs! e cansado tb da porra da saudades! Voltem logo
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