Escrevo esse post sentada numa cama de um quarto bem
desinteressante - um eufemismo delicado da minha parte.
Estamos em Madurai, cidade "conhecida com a Atenas do
Oriente (?!)".
nós no elevador em Madurai
Dentre outras investidas de hoje, fomos no Museu do Gandhi -
lugar onde há detalhes da história indiana tanto quanto há detalhes da vida da
grande alma em questão. Na visita, enquanto observávamos o pedaço de pano
ensanguentado, chamado dhoti, única peça de roupa que Gandhi usava quando
morreu, uma sala toda pintada de preto - até o ventilador de teto - João, do auge do seu sarcasmo inventou:
"Imagine um museu com detalhes impressionantes da vida de um sujeito
comum, ordinário, com talheres que ele usa expostos ou cartas que ele escreve
(ou emails?) ou exemplares do seu armário."
Gandhi não era somente um sujeito extraordinário, mas como o
maior líder de todos os tempos. Conseguiu o que a India, sem a sua presença,
ainda tenta, agradar gregos e troianos. Mas como fui guiada pelo auge do
sarcasmo Joanesco, resolvi falar inteiramente da minha vida interessantíssima
em Munnar - cidade anterior - e Madurai.
3 Ms : Maria em Munnar e Madurai (não confundir com
Madureira, uai!)
Continuando a falar do nosso hotel: seu pavoroso lavabo
emite não somente um odor típico de latrina com curry, mas como uma constante
ventilação aquecida a 40 graus. Toda vez que abrimos a porta temos a impressão
de que estamos abrindo a tampa da privada inteira. Pra quem foi para o UP
conosco sabe da brisa que sai de dentro do vaso sanitário, imaginem isso
elevado a 10 por todo o banheiro…
Ah, não se preocupem, eu tenho um incrível Laysol
desinfetante, que chega antes em qualquer banheiro! Coisas de Maria...
Já em Munnar, cidade anterior...
...numa altitude de 1.500m acima do nível do mar, tudo era
uma grande delícia. Por isso passamos duas semanas bem acomodados pagando 14
dólares por uma suíte no alto da montanha com um jardim cheio de rosas e uma
vista para uma imensa plantação de chá - Munnar, na verdade, É uma imensa
plantação de chá. O banheiro era no esquema "baldinho" e só havia
água quente das 7h-9h e das 18h-20h, mas quem se importava? Até banho frio era
bem vindo depois do chá das 17h, 18h ou 19h, com um belo aroma de cardamomo e
chocolate amargo com avelã feito em casa. Já na casa do Gandhi, a comunidade ou
ashram (já ouviram essa palavra recentemente, não?) tinha vocações semelhantes
aos dois lugares que estivemos recentemente. Seu arshram era bem longe
daqui,perto de Delhi, mas tinha como intuito ser auto- suficiente na produção
da sua comida e vestes. Com um punhado de sal e um pano que ele próprio
produziu e vestiu, Gandhiji (uma forma carinhosa de chamar alguém, como Mariaji
ou Joãoji ou Roseji ou Zéji - novo irmãozinho do João que esta a chegare) moveu
o mundo. Munnar não moveu nada, mas as plantações que vimos por lá não só se
auto abastecem como a toda Inglaterra - desta vez, os ingleses não têm escolha
a não ser comprar da ex-colônia, irônico, não?
nosso fiel
jardineiro
Já Madurai foi o lugar escolhido pelo Mahatma (maha -
grande, atma - alma) para chocar o mundo com sua tanguinha. Aqui ele optou por
vestir como o indiano comum se veste, de de de sainha! Brincadeira, de dhoti,
esse pano que os homens envolvem na cintura e usam como uma saia.
João
representando, isso é um dothi e suas possíveis formas
e isso também é o nosso banheiro
O diferencial era que ele mesmo o produzia, com uma roda de
tecer. Lembram aquela imagem clássica do velhinho frágil com uma linha e uma
roda sentado no chão? Essa roda foi de tamanho simbolismo que foi parar na
bandeira nacional, pois é dela que eles tiraram o fôlego para conquistar a
independência da fominha e cruel Coroa inglesa. Além disso, a Roda é o símbolo
do Dharma,* algo como o caminho da verdade
indiano* e ainda o chacra, que em sânscrito significa roda, uma roda que
os indianos giram e ganham energia para unir a nação.
Acho que fugi do meu objetivo de narrar com emoção de museu
o meu cotidiano. Ok, tentarei mais uma vez.
Em Munnar, por duas semanas, acordávamos e
tomávamos um deleitoso café da manhã, enquanto todos os gringos ficavam com
água na boca: 6 laranjas, 4 mangas, 1 cacho de uva, 2 bananas, ameixas,
maracujá esquisito, abacate, torradas com manteiga e chá de cardamomo ou
canela. Claro que nem tudo de uma vez, variações de um mesmo tema por dia. Aqui
em Madurai, que estamos deixando logo, nosso café é inteiramente estilo
indiano: ghee dosa (ou roast) - onde ghee é uma manteiga mais pura, livre de
lactose e gordura saturada - e dosa é uma espécie de panqueca tão fina como uma
folha de papel, feita a base lentilha e batata., que gera apenas uma folha
crocante, é gostoso! Ainda como Iddly: um pãozinho pegajoso de arroz e água,
porque não consigo tomar massala chai, uma mistura de temperos com gosto de
incenso com leite. Mas já o João, come o Dosa dele com massala (uma mistura de
temperos com batata), sem o Idlly e ainda um chá preto cheio de açúcar - aqui
tudo que pode levar açúcar leva MUITO.
a
vista da nossa plantação de chá (sem açúcar!)
Já o Gandhi…. fazia o jejum como parte do Sathyagarra - que
é um conceito pouco utilizado na História: a confrontação do mal sem odiar o
mal-feitor, um princípio de não-violência. Seus jejuns falavam no âmago dos
indianos, que muitas vezes acompanhavam-no na dieta. Foi assim que ele
paralisou o país com diversas greves (de fome) e conseguiu, pouco a pouco,
libertar a fome e a miséria do imperialismo inglês.
Sua luta não foi em vão, seu discurso é quase unânime e sua
popularidade alcançou todas as classes ou castas indianas. Por causa dele, os
dalits - ou os intocáveis - casta mais baixa e marginal de todas, puderam, pela
primeira vez, entrar num templo e encontrar seu lugar nos poojas - ritual
diário para os deuses - realizado pelos brâmanes, casta do clero, obviamente,
uma das mais altas. Seu discurso era político, era religioso, era indiano e era
mundial. Isso foi apenas há pouco mais de meio século. Quando ele falava da
violência contra a mulher, contra a exclusão e a demagogia da grande maioria,
de jejuar pelo paz e cuspir no chão que um dalit vive.
Recentemente um video ficou famoso no youtube daqui: um
político popular discursa sobre "o direito de manifesto" quando é
interrompido pela própria mulher que arrumava alguma coisa ao seu lado, o
grande líder da liberdade de expressão, então, achincalha a esposa com tanta
raiva e veemência, que seu discurso se tornou mais popular ainda, não pela
liberdade, mas pela agressividade de um tirano. Pois então, infelizmente, essa
terra que criou grande almas, de uma ideologia tão fundamental para a própria
Existência (ou resistência? )Humana, ainda, hoje em dia, vive essa dicotomia
bizarra. Racismo e misoginia são tradições também resistindo aos séculos e aos
ideais.
Para finalizar, hoje nosso almoço foi vegetais com curry,
panner butter massala: que vem a ser panner - uma espécie de queijo coalho com
gosto de (ou ausência de gosto de) queijo cottage - com um molho de manteiga
com curry. Pra ficar claro o que ainda não é claro para nós: curry é qualquer
molho, eu acho, não necessariamente aquele amarelinho em pó que vende no
Brasil, e massala é qualquer molho também. Já achamos que o curry é mais aguado
e a massala mais consistente, mas foi tamanha a disparidade que encontramos
pedindo o mesmo prato em diferentes restaurantes que já não sabemos de mais
nada. Mas no fim as variações são sempre entre curry e massala com coisas
dentro.
Talvez pareça
distante, distante era pra mim antes de ver com os meus olhos. A imagem do velho
senhor de óculos vestindo um trapo parecia uma exótica fotografia de tempos
antigos. Mas ainda é tão atual, real e nada exótico ,- aqui, pelo menos - é o
que se vê cotidianamente. Uma mesma India que Gandhi deixou em 30 de janeiro de
1948. Ele testemunhou a partição da
India e do Paquistão, ele jejuou - na casa de um muçulmano - por semanas a fim
de encontrar a união entre hindus e muçulmanos, duas partes de um mesmo todo,
nem ele foi capaz de fundir o que para eles já estava rachado.
Quando para nós tanto faz se é curry ou massala, no fim dá
tudo no mesmo, para eles faz mortal diferença ser muçulmano ou hindu, ser do
Paquistão, Bangladesh, India ou Kashemira. Procuram a diferença de temperos
nessa sopa multicultural. Pra mim, colocar panner, curry, massala, gengibre,
açafrão, cominho, coentro, pimenta, cardamomo, açúcar, leite ou sal na comida
não faz mais diferença, é tudo indiano. Pra Gandhiji também, paquistaneses,
indianos, indianas, dalits, somos todos humanos, Filhos de Gandhi.
detalhe do Meenakshi, templo em Madurai, o
primeiro a abrir as portas paras os intocáveis. gente de todas as formas e
cores ironicamente convivem no templo, mas não no solo indiano...
Por fim o jogo indiano:
os números apresentam a dinâmica social da rua da Índia
1 - somente homens aparecem na foto, somente homens aparecem
nas ruas por aqui (praticamente) e o senso não confirma que eles sejam a
esmagadora maioria
2 - a única mulher da foto é uma estrala de Bollywood, notem
que ela está praticamente nua (mostrando as costas...) de forma que nenhuma
mulher poderia pensar em andar numa rua daqui. Além disso, uma coisa curiosa é
que mesmo sendo uma das mais famosas atrizes, encontramos sua imagem em todo
tipo de comercial, desde dentadura até geladeira. Como é o caso aqui, num
comercial de máquina fotográfica digital.
3 - Isso é bem Índia, uma cidade que mal possui urbanização
planejada, mas possui um templo gigantesco e muito bem planejado!
4 - Andaimes de madeira?
5 - Brasil!!! Gatos de luz pra todo lado! Luz para todos!!!!!









