domingo, 2 de junho de 2013

nós aprendendo com ele

Escrevo esse post sentada numa cama de um quarto bem desinteressante - um eufemismo delicado da minha parte.
Estamos em Madurai, cidade "conhecida com a Atenas do Oriente (?!)".

                        nós no elevador em Madurai

Dentre outras investidas de hoje, fomos no Museu do Gandhi - lugar onde há detalhes da história indiana tanto quanto há detalhes da vida da grande alma em questão. Na visita, enquanto observávamos o pedaço de pano ensanguentado, chamado dhoti, única peça de roupa que Gandhi usava quando morreu, uma sala toda pintada de preto - até o ventilador de teto -  João, do auge do seu sarcasmo inventou: "Imagine um museu com detalhes impressionantes da vida de um sujeito comum, ordinário, com talheres que ele usa expostos ou cartas que ele escreve (ou emails?) ou exemplares do seu armário."
Gandhi não era somente um sujeito extraordinário, mas como o maior líder de todos os tempos. Conseguiu o que a India, sem a sua presença, ainda tenta, agradar gregos e troianos. Mas como fui guiada pelo auge do sarcasmo Joanesco, resolvi falar inteiramente da minha vida interessantíssima em Munnar - cidade anterior - e Madurai.

3 Ms : Maria em Munnar e Madurai (não confundir com Madureira, uai!) 

                  nosso motorista e um retrato da cidade

Continuando a falar do nosso hotel: seu pavoroso lavabo emite não somente um odor típico de latrina com curry, mas como uma constante ventilação aquecida a 40 graus. Toda vez que abrimos a porta temos a impressão de que estamos abrindo a tampa da privada inteira. Pra quem foi para o UP conosco sabe da brisa que sai de dentro do vaso sanitário, imaginem isso elevado a 10 por todo o banheiro…
Ah, não se preocupem, eu tenho um incrível Laysol desinfetante, que chega antes em qualquer banheiro! Coisas de Maria...
Já em Munnar, cidade anterior...



...numa altitude de 1.500m acima do nível do mar, tudo era uma grande delícia. Por isso passamos duas semanas bem acomodados pagando 14 dólares por uma suíte no alto da montanha com um jardim cheio de rosas e uma vista para uma imensa plantação de chá - Munnar, na verdade, É uma imensa plantação de chá. O banheiro era no esquema "baldinho" e só havia água quente das 7h-9h e das 18h-20h, mas quem se importava? Até banho frio era bem vindo depois do chá das 17h, 18h ou 19h, com um belo aroma de cardamomo e chocolate amargo com avelã feito em casa. Já na casa do Gandhi, a comunidade ou ashram (já ouviram essa palavra recentemente, não?) tinha vocações semelhantes aos dois lugares que estivemos recentemente. Seu arshram era bem longe daqui,perto de Delhi, mas tinha como intuito ser auto- suficiente na produção da sua comida e vestes. Com um punhado de sal e um pano que ele próprio produziu e vestiu, Gandhiji (uma forma carinhosa de chamar alguém, como Mariaji ou Joãoji ou Roseji ou Zéji - novo irmãozinho do João que esta a chegare) moveu o mundo. Munnar não moveu nada, mas as plantações que vimos por lá não só se auto abastecem como a toda Inglaterra - desta vez, os ingleses não têm escolha a não ser comprar da ex-colônia, irônico, não?


                         nosso fiel jardineiro

Já Madurai foi o lugar escolhido pelo Mahatma (maha - grande, atma - alma) para chocar o mundo com sua tanguinha. Aqui ele optou por vestir como o indiano comum se veste, de de de sainha! Brincadeira, de dhoti, esse pano que os homens envolvem na cintura e usam como uma saia.

         João representando, isso é um dothi e suas possíveis formas

                          e isso também é o nosso banheiro

O diferencial era que ele mesmo o produzia, com uma roda de tecer. Lembram aquela imagem clássica do velhinho frágil com uma linha e uma roda sentado no chão? Essa roda foi de tamanho simbolismo que foi parar na bandeira nacional, pois é dela que eles tiraram o fôlego para conquistar a independência da fominha e cruel Coroa inglesa. Além disso, a Roda é o símbolo do Dharma,* algo como o caminho da verdade  indiano* e ainda o chacra, que em sânscrito significa roda, uma roda que os indianos giram e ganham energia para unir a nação.



Acho que fugi do meu objetivo de narrar com emoção de museu o meu cotidiano. Ok, tentarei mais uma vez.
Em Munnar, por duas semanas, acordávamos e tomávamos um deleitoso café da manhã, enquanto todos os gringos ficavam com água na boca: 6 laranjas, 4 mangas, 1 cacho de uva, 2 bananas, ameixas, maracujá esquisito, abacate, torradas com manteiga e chá de cardamomo ou canela. Claro que nem tudo de uma vez, variações de um mesmo tema por dia. Aqui em Madurai, que estamos deixando logo, nosso café é inteiramente estilo indiano: ghee dosa (ou roast) - onde ghee é uma manteiga mais pura, livre de lactose e gordura saturada - e dosa é uma espécie de panqueca tão fina como uma folha de papel, feita a base lentilha e batata., que gera apenas uma folha crocante, é gostoso! Ainda como Iddly: um pãozinho pegajoso de arroz e água, porque não consigo tomar massala chai, uma mistura de temperos com gosto de incenso com leite. Mas já o João, come o Dosa dele com massala (uma mistura de temperos com batata), sem o Idlly e ainda um chá preto cheio de açúcar - aqui tudo que pode levar açúcar leva MUITO.


             a vista da nossa plantação de chá (sem açúcar!)

Já o Gandhi…. fazia o jejum como parte do Sathyagarra - que é um conceito pouco utilizado na História: a confrontação do mal sem odiar o mal-feitor, um princípio de não-violência. Seus jejuns falavam no âmago dos indianos, que muitas vezes acompanhavam-no na dieta. Foi assim que ele paralisou o país com diversas greves (de fome) e conseguiu, pouco a pouco, libertar a fome e a miséria do imperialismo inglês.
Sua luta não foi em vão, seu discurso é quase unânime e sua popularidade alcançou todas as classes ou castas indianas. Por causa dele, os dalits - ou os intocáveis - casta mais baixa e marginal de todas, puderam, pela primeira vez, entrar num templo e encontrar seu lugar nos poojas - ritual diário para os deuses - realizado pelos brâmanes, casta do clero, obviamente, uma das mais altas. Seu discurso era político, era religioso, era indiano e era mundial. Isso foi apenas há pouco mais de meio século. Quando ele falava da violência contra a mulher, contra a exclusão e a demagogia da grande maioria, de jejuar pelo paz e cuspir no chão que um dalit vive.
Recentemente um video ficou famoso no youtube daqui: um político popular discursa sobre "o direito de manifesto" quando é interrompido pela própria mulher que arrumava alguma coisa ao seu lado, o grande líder da liberdade de expressão, então, achincalha a esposa com tanta raiva e veemência, que seu discurso se tornou mais popular ainda, não pela liberdade, mas pela agressividade de um tirano. Pois então, infelizmente, essa terra que criou grande almas, de uma ideologia tão fundamental para a própria Existência (ou resistência? )Humana, ainda, hoje em dia, vive essa dicotomia bizarra. Racismo e misoginia são tradições também resistindo aos séculos e aos ideais.
Para finalizar, hoje nosso almoço foi vegetais com curry, panner butter massala: que vem a ser panner - uma espécie de queijo coalho com gosto de (ou ausência de gosto de) queijo cottage - com um molho de manteiga com curry. Pra ficar claro o que ainda não é claro para nós: curry é qualquer molho, eu acho, não necessariamente aquele amarelinho em pó que vende no Brasil, e massala é qualquer molho também. Já achamos que o curry é mais aguado e a massala mais consistente, mas foi tamanha a disparidade que encontramos pedindo o mesmo prato em diferentes restaurantes que já não sabemos de mais nada. Mas no fim as variações são sempre entre curry e massala com coisas dentro.


 Talvez pareça distante, distante era pra mim antes de ver com os meus olhos. A imagem do velho senhor de óculos vestindo um trapo parecia uma exótica fotografia de tempos antigos. Mas ainda é tão atual, real e nada exótico ,- aqui, pelo menos - é o que se vê cotidianamente. Uma mesma India que Gandhi deixou em 30 de janeiro de 1948.  Ele testemunhou a partição da India e do Paquistão, ele jejuou - na casa de um muçulmano - por semanas a fim de encontrar a união entre hindus e muçulmanos, duas partes de um mesmo todo, nem ele foi capaz de fundir o que para eles já estava rachado.
Quando para nós tanto faz se é curry ou massala, no fim dá tudo no mesmo, para eles faz mortal diferença ser muçulmano ou hindu, ser do Paquistão, Bangladesh, India ou Kashemira. Procuram a diferença de temperos nessa sopa multicultural. Pra mim, colocar panner, curry, massala, gengibre, açafrão, cominho, coentro, pimenta, cardamomo, açúcar, leite ou sal na comida não faz mais diferença, é tudo indiano. Pra Gandhiji também, paquistaneses, indianos, indianas, dalits, somos todos humanos, Filhos de Gandhi.


detalhe do Meenakshi, templo em Madurai, o primeiro a abrir as portas paras os intocáveis. gente de todas as formas e cores ironicamente convivem no templo, mas não no solo indiano...


Por fim o jogo indiano:
os números apresentam a dinâmica social da rua da Índia
1 - somente homens aparecem na foto, somente homens aparecem nas ruas por aqui (praticamente) e o senso não confirma que eles sejam a esmagadora maioria
2 - a única mulher da foto é uma estrala de Bollywood, notem que ela está praticamente nua (mostrando as costas...) de forma que nenhuma mulher poderia pensar em andar numa rua daqui. Além disso, uma coisa curiosa é que mesmo sendo uma das mais famosas atrizes, encontramos sua imagem em todo tipo de comercial, desde dentadura até geladeira. Como é o caso aqui, num comercial de máquina fotográfica digital.
3 - Isso é bem Índia, uma cidade que mal possui urbanização planejada, mas possui um templo gigantesco e muito bem planejado!
4 - Andaimes de madeira?

5 - Brasil!!! Gatos de luz pra todo lado! Luz para todos!!!!!