domingo, 26 de maio de 2013

Na casa da Deusa


KALI-MA!

Então chegamos a esse que talvez tenha sido o lugar mais exótico dentre todos os lugares exóticos que visitamos aqui, nos confins do mundo. Multidões vem pra ca buscando a simples presença fisica dessa mulher que eles crêem ser uma espécie de santo. Numa noite normal de Darshan centenas de pessoas se  acumulam no grande auditório em busca de um breve contato fisico, um caloroso abraço de sua guru. Eles são em sua maioria Indianos que falam Malayalam, a lingua oficial do Kerala, e prescrevem a fé Hindu. Mas há também Muçulmanos, Católicos, Ateus, pessoas da india inteira, do mundo inteiro, falando uma verdadeira torre de babel de línguas. Não seria arriscado dizer que esse é o abraço mais poderoso do mundo: um abraço que ja trouxe milhões para uma pequena cidade no interior de um pequeno estado da India. Um abraço que alimenta mais de dois milhões de pessoas por ano. Um abraço que estimula os homens a trabalhar em auxilio uns dos outros. Senhoras e senhores, esse é o abraço de Amma.

Confesso que não conheço muito bem sua história. Como todo homem santo na India há dados em sua biografia que eu prefiro nem observar, pois o cético em mim fica impaciente. O que sei sobre essa simpática senhora foi o que aprendi conversando e andando lá pelo Ashram, o que certamente não é muito, mas me marca com profunda impressão. Assim como quase tudo nesse pais esse lugar me gera sensações profundamente paradoxais. Pois se por um lado vejo um trabalho sério e dedicado para com o ser humano ao lado, por outro vejo uma estranha e abobalhada forma de fanatismo.

Qual é o poder, afinal, dessa tal Amma? O que é que move tantas pessoas pra cá? O que as traz para esse remoto e poderoso lugar? Do alto do prédio de quinze andares onde ficamos hospedados e que abrigava mais de mil pessoas eu contemplava essa pergunta. Abaixo de mim o violento e escuro mar do kerala atingia o aterro de pedras da horrorosa praia me lembrando da violência que a experiência do Atma, ou do inconsciente, chame-o como quiser, pode as vezes ter. Lá, a gentileza com que Amma trata todos é inspiradora e se há algo de violento é o seu poder de destruir aquilo que lhe parece injusto no mundo. Por isso não há paradoxo com as constantes imagens de Kali, deusa Hindu da destruição. Mesmo que seja uma gentil Mãe, Amma está muito preocupada em exterminar certas coisas desse mundo.

Estar presente num lugar onde a maioria das pessoas vai para praticar Guru-Yoga é bastante estranho para mim. Meu individualismo radical acha difícil de aceitar essa prática tão antiga e tradicional da cultura Indiana. Yoga significa União, Abraço, o fim da separação entre a consciência individual e a consciência divina. Guru é um professor do espirito, um sujeito que segundo a tradição Hindu já realizou sua própria divindade pessoal, tornou-se iluminado, e expressa isso para o mundo. Na Guru-Yoga o Guru é usado como uma escada para que o discípulo realize o mercurial trabalho de encontrar dentro em si mesmo a divindade. Ele deve servir como um canvas, uma tela sobre a qual o discipulo projete sua própria divindade interior. Até que um dia você teoricamente retira a superficie e a imagem continua lá. Essa é a teoria, é claro. A prática me parece sempre um pouco mais complicada.

Amma, a Guru, é um Avatar da Deusa. Ou seja, ela é uma encarnação da grande Mãe que por aqui tem muitos aspectos e muitos nomes: Shakti, Parvati, Kali, Durga, Chamundi, Saraswati, Lakshmi, BhumaDevi, PampaDevi, ChandraDevi e muitos outros. Seu nome significa mãe em muitas línguas, até nas Amas de Leite do nosso português. Ela, assim como toda mãe deveria ser, é acolhedora. E não seria nenhum exagero dizer que sempre cabe mais um no colo dessa Amma. É por isso, por gerar tamanho conforto no coração dos que precisam, que ela é tão popular. As três mil pessoas que habitam seu Ashram estão ali só por isso, para sentir sua incondicional compaixão. E a minha opinião é que algumas pessoas foram tão destratadas e mal amadas ao longo de suas vidas que isso muda-as para sempre. Elas se tornam viciadas na personalidade gentil dessa lider como um junkie se vicia no esquecimento que lhe trazem as drogas. Assim todo o objetivo de tornar-se consciente de seu próprio guru interior torna-se secundário, pois elas tornam-se obcecadas pela figura e não pelo que ela deve evocar. 

É claro que no fim das contas o drogado está numa condição muito mais precária do que o discípulo que confundiu seu Guru por deus. Mesmo assim o radicalismo que eles exibem no seu comportamento não torna-se menos assustador para quem olha de fora. Fotos da carismática dama se espalham por toda superficie imaginável - dos altares onipresentes às portas de elevadores e paredes dos pequenos apartamentos. Duas montagens de mais de tres metros de altura com sobretons New Age adornam as laterais do grande palco onde o Darshan é oferecido, e nas TVs gigantes de LCD que o circundam fotos e videos dela são constantemente repetidos. Quando você esta la dentro um violento grau de exposição é inevitável, o que me fez crer que um certo grau de obsessão e fanatismo também é. A quantidade de pessoas que vão morar lá ou largam tudo o que tem e tornam-se renunciantes, dedicando sua vida a espiritualidade vedanta com suas profusões de austeridades físicas, é embasbacante. E o mais incrível é que em sua maioria eles são ocidentais.

Confesso que senti um pouco de medo nos segundos que precederam minha entrada no terreno do Ashram. Pensava comigo: como é que uma pessoa se torna fanática? Que tipo de experiência torna essa a única opção nas suas vidas? Eu não sabia o que encontraria nos dias a frente. Temia talvez encontrar a resposta da pior maneira - me tornando um.

La dentro encontramos o primeiro grupo de Brasileiros com o qual fizemos algum tipo de contato desde que chegamos a india. Eram tres mulheres e um garoto e fora o alivio de finalmente falar um pouco de português o encontrou serviu para nos orientar naquele ambiente tão exótico. O minimo que qualquer deles tinha ficado lá era vinte dias, então eles entendiam as dinâmicas e hierarquias misteriosas do lugar. Foi tão facil que em pouco tempo eu ja tinha formado uma imagem preconceituosa daquilo tudo. Mas aquele lugar tem poder, e o tempo viria a provar as limitações da minha perspectiva.

A principal prática do Ashram é o que eles chama de Seva, serviço comunitário sem retornos. Espera-se de todos os hospedes e residentes que eles dediquem pelo menos uma hora do seu dia à alguma atividade de sua própria escolha. Maria foi lavar roupa pela manhã, já eu optei por algo mais radical. Já que eu ia me mexer que fosse por uma boa causa. Então fui trabalhar com compostagem.

Meu oficio constituia-se na mistura de restos orgânicos (comida em sua maioria) com estrume de vaca e serragem para a formação de uma massa asquerosa que fermenta para um dia se tornar adubo. Era um trabalho nojento e insalubre, para os fortes de espirito e de estomago. Falo assim, tirando onda, mas a verdade é que só durei um dia lá. Gostei do trabalho, de mexer no lixo, mas era um  negócio muito fisico e algo em mim não aguentou. A medida que o dia passava fui me tornando cada vez mais fraco, até que quando a noite chegou ardi em febre. Nos delirios noturnos que se seguiram eu imaginei os mais diversos motivos para minha convalescência: que tinha contraído malaria ou dengue, que tinha contraído algum doença no lixão, que estava sendo "castigado" por minhas idéias heréticas sobre aquele lugar, que estava sendo purificado de antigos acúmulos interiores e muitas outras coisas que já não me lembro. Foi uma longa noite. Do lado de fora eu ouvia o burburinho constante do Darshan, que só acabou as tres e meia da manhã encerrando-se num vazio que preencheu toda a propriedade.

Eu obviamente não pude receber o famoso abraço essa noite. No dia seguinte também não pude mais trabalhar, pois mesmo que estivesse curado dos súbitos sintomas, não me sentia forte o suficiente para emprestar-me para nada. Descansei o dia todo, ao fim do qual já estava apto para receber o abraço da santa mulher. Enquanto esperava na fila tive uma sensação de enfim estar rendido, como se eu não conseguisse mais achar aquilo tudo uma palhaçada. Eu via as caras das pessoas, pessoas comuns que iam lá falar com ela, e entendia que nem tudo ali era sobre a horda de radicais renunciantes e pessoas desequilibradas mentalmente. A simplicidade dos sujeitos que ali estavam, apenas em busca de um pouco de carinho e sabedoria, me desarmou. Ou talvez aquele circo todo que se montou em volta dela me atrapalhou a visão.

Enfim, depois de mais de duas horas e meia na fila, chegou minha vez. Enquanto aguardava os preparativos uma velha muito antipática me perguntou minha lingua e depois me bombardeou com uma serie de instruções sobre como abraçar a Amma. "Não se apoie sobre ela, se apoie no braço esquerdo da sua poltrona, não fique tempo demais, não fale nem pergunte nada, ela vai te dar o abraço, não tente abraça-la". As pessoas que a cercavam pareciam tão histéricas que muitas vezes a própria Amma tinha que intervir para que pudesse ter o minimo de intimidade que seus segundos com cada um permitiam.

Seus braços me envolveram, eles eram gordinhos e estavam cobertos por um refrescante pano branco. Foi a primeira e talvez a única mulher indiana que ja abracei na minha vida. Ela cochichou no meu ouvido uma tentativa desajeitada de português "Meu querido, seja feliz! Meu querido, seja feliz! Meu querido, seja feliz!" assim, três vezes, exatamente da mesma forma que fez com a Maria logo depois. Quando seus braços enormes me largaram eu pude ver seus rosto sorridente e então eu percebi o que acontecia com ela. Amma estava tentando. Tentava com todas as suas forças. Dava sua vida para essa tentativa de ensinar aos outros um pouco de gentileza e compaixão, mesmo que a grosseria de seus discípulos mais próximos deixasse bem claro que nem todos ali estavam ouvindo. Mas o que uma velha senhora pode fazer a esse respeito além de continuar tentando? Dando sua vida para que os homens possam ver que é possível dar sua vida por algo que não seja mesquinho interesse. Foi então que uma realização das mais profundas amanheceu em mim: foi com essa mulher que muitos acreditam ser Deus(a) que eu aprendi uma das minhas maiores lições de Humanidade.

encarnação da fofura



sábado, 18 de maio de 2013

2 VIDEOS


Sempre tentamos produzir videozinhos, mas isso raramente se mostra uma coisa simples...Aproveitamos para lançar logo 2 de uma só vez. Esperamos que gostem!

A natureza aqui é viva e conversa com quem por aqui passa ou permanece.  
Andaman Islands são o pico de uma cordilheira que nasce em Miamar (Burma) e mergulha mar adentro; um pedregulhão rochoso que só sobe para respirar quando se chama de Andaman e Nicobar Islands. 
E quando a vista insiste em ser exuberante e seus olhos acham que estão tendo alucinações, perceba: são apenas as conchinhas indo dar um volta. Patinhas de fora, vão dar uma esticada até o mar, cavucar a areia. 
Do que se tratariam seus interesses tão urgentes?! Calma, amiguinho, pra quê a pressa! 
Fernão Capelo Gaivota me fez acreditar que mais do que comida os animais ficam o dia a buscar. Pessoalmente, acho que eles têm inquietações tão pertinentes à vida andamanense que nós, turistas- gringos-grandes-esquisitos não entenderíamos.
 Confesso que ganhei dias e dias com uma câmera tentando captar seus pensamentos... e olha que consegui!!!!!
*eu dedico este video à minha amiga amada Marcela, que de Mar é feita, que nem eu Mar...ia.





areia from João Maia on Vimeo.



E tão natural para mim estar dentro de um teatro... E um lugar onde me sinto totalmente a vontade. Mesmo aqui, na distante Kerala, a presença de um palco, os cheiros de maquiagem e o silêncio respeitoso são os mesmos. As apresentações de Kathakali foram reduzidas em duração, de seis horas para noventa minutos. Elas deixaram seu lugar original, os templos, e agora se vendem para gringos em pequenos teatrinhos espalhados pela deliciosa Fort Kochi. No folheto até os indianos aprendem um pouco mais sobre o Mahabharatta, épico basilar de sua cultura que nem sempre e conhecido muito a fundo. Agora os atores se maquiam no palco enquanto os turistas curiosos tiram fotos. As apresentações acontecem todo dia, neste em que fomos haviam mais de vinte pessoas conosco no pequeno teatro, embora algumas não tenham resistido até o fim do curto espetáculo. Sinceramente, essas adaptações me parecem justas. São as estratégias que essa forma de arte tão antiga precisou assumir para sobreviver.

Em se tratando de Índia, só homens estão sobre o palco, é claro. Mesmo assim, aqui há uma androginia que não se encontra com facilidade pelas ruas. Uma aceitação tácita do feminino que é condição sinequanon para o teatro. As cores que adornam suas caras são simples, esse teatro é uma arte tão antiga que não pode se render à grandes complexidades. Em sua simplicidade desconcertante, em sua pobreza, encontramos terreno fértil para o lúdico. No Kathakali isso fica tão evidente! Papel e pigmento ainda são a matéria prima da Magia, assim como eram quando ele foi criado. Não ha iluminação e a música é toda feita na hora. Não e à toa que Grotowsky achou nesse seu teatro seminal. Viva a dança dramática tradicional!



kathakali from João Maia on Vimeo.




sexta-feira, 10 de maio de 2013

De volta a Incrível Índia!


       Durante as últimas três semanas estivemos no paraíso e no inferno, e o nome desses dois lugares é Índia. Tudo começou quando deixamos Bangkok, nos idos dias de vinte de abril de dois mil e treze. Chegamos a enigmática Calcutá, casa da famosa Madre Teresa e de... mais nada? Pelo menos foi o que achamos quando chegamos lá. Quando saí do aeroporto, cansado da fanfarra turistica pela qual haviamos passado no último mês e meio, proferi: "Quer saber, fodam-se esses asiáticos, eu prefiro a Índia, pode me trazer a sujeira, a pobreza, a brutalidade!". Parecia que essa terra poderosa estava disposta a por a prova minha afirmação. Kolkatta, como ela é conhecida agora, foi porrada atrás de porrada. Cada tentativa nossa de fazer qualquer coisa, de nos movimentarmos, de realizar tarefas básicas e necessárias, era saudada com as mais infinitas dificuldades. Ficamos lá por três dias, acreditávamos que seria tempo o suficiente para realizar nossas pequenas obrigações (enviar algumas coisas pro Brasil via correio aéreo e conseguir um chip de celular para usar internet) e conhecer a cidade. Grande engano. Demoramos três dias completos para realizar essas duas simples tarefas, ao final do qual estávamos completamente exaustos. Da cidade nada conseguimos ver, mas a verdade é que não lamentamos muito isso.

Decadence sans elegance

        Kolkata parece um pouco uma versão perversa e ainda mais decadente de Cuba, ou pelo menos da imagem que a desconhecida Havana ocupa no meu inconsciente. A impressão que se tem ali é a de que todo e qualquer investimento em aparelhagem urbana foi encerrado no fim da década de sessenta. Os taxis fedem a fusca velho - gasolina com ferrugem - e são todos o mesmo modelo, um banheirão muito do clássico produzido pela HM, a Hindustan Motors. Os onibus são de madeira, não tem janela, e suas paredes estão se despedaçando. Nas ruas não há calçadas, e quando há você deseja que não houvessem. A pobreza abunda, a miséria não é só financeira, sente-se acima de tudo na completa falta de educação dos seres que habitam aquele espaço. Eles se tornaram totalmente embrutecidos pela fuligem, pelo barulho, pelo sujeira. Kolkata é a segunda cidade que mais produz lixo na india, são mais de oito mil toneladas por dia. Mais do que qualquer outra coisa o que mais se depredou nesse ambiente violento foram as relações humanas. No auge da Babel que é o transito local, tentávamos nos localizar em busca da agência dos correios na central Park Avenue. Nosso taxista não entendia nada do que dizíamos e parecia não ter muita paciência para a violenta barreira de linguagem que nos separava. Numa tentativa de achar o lugar (que me parecia que ele deveria saber de cor já que era a principal agencia de correio da cidade) um outro taxi passa e arranca fora seu para-choques na maior violência e vai embora, como se nada tivesse acontecido. O homem xinga muito, esta revoltado, mas a bem da verdade não há nada que ele possa fazer no meio daquele caos. Como uma pessoa assim pode exibir qualquer tipo de gentileza perante o próximo?


Esse sujeito, na verdade, era muito simpático.

        Finalmente partimos, e muito felizes, nem a casa da Madre, o único ponto de interesse do qual ouvimos falar, conseguimos ver. Azar, pensamos, mas a bem da verdade queríamos ver aquela cidade pelas costas o mais rápido possível, e foi o que conseguimos. Depois que chegamos a Havelock, no paradisíaco arquipelago de Andaman, conhecemos um cidadão de Calcutá que nós disse que a cidade é um dos pontos culturais mais importantes da Índia. Uma cidade de teatro e música, a antiga capital da Índia. Pena que a dureza de seu ambiente não  permitiu que isso ficasse visível. Vida que segue.
      Mas por que foi mesmo que resolvemos ir para esse lugar infernal? Ah sim! Andaman Islands! Lá no dia em que nos deu a louca no Laos, quando decidimos que aquela viagem não era nada do que desejávamos, olhamos no mapa e pensamos: qual é o local mais isolado que podemos ir? Para onde é que ninguem mais vai? Onde é que poderemos ficar tranquilos, lendos, escrevendo, meditando, estudando... em paz?! Vimos um arquipélago no meio do oceano indico - que porra de lugar é esse? Ilhas de Andamão. Me lembrei da referência do amigo Nicola,  e na hora decidimos: é pra lá que vamos. Não poderiamos ter acertado mais.

Podiamos?

      Como sempre nesse país louco, não chegaríamos ao paraíso sem sofrer um pouco antes. Então depois de Kolkatta chegamos a capital da ilha para descobrir um outro lugar simplesmente bizarro. Port Blair é uma cidade pequena, cem mil habitantes, e da uma sensação mais ou menos parecida com o centro de Madureira adicionada a uma vibe pescador muçulmano. Não há muito o que fazer por lá, é um lugar pobre e cinza e o melhor restaurante da cidade é uma bosta completa. Não adianta espernear, o único motivo para se estar ali, ao menos que você seja obrigado, é para alcançar as outras ilhas. Mas isso também não é tão fácil quanto pode parecer. Chegamos lá no sábado, e apesar do ferry funcionar todos os dias e do barco no dia seguinte não estar cheio, a bilheteria só funcionava nos dias de semana. Então no domingo, desesperados com a possibilidade de ter que passar mais um dia na insossa Port Blair, acordamos as quatro e meia da manhã e tivemos que subornar um funcionário do porto local para conseguir entrar no último segundo na barca para o principal destino do arquipélago: a ilha de Havelock.

Nesse pais as coisas estão de pernas pro ar...

     Enfim, chegamos. Aqui não havia mais nada que poderíamos querer. Posso dizer sem medo que esse foi o ponto alto da nossa viagem. De todos os lugares incríveis que conhecemos esse foi o maior! Uma ilhota que se cruza de moto em meia hora com aguas azul turquesa cristalina, um coro constante e transcendental de cigarras, coqueiros e uma mata que lembrava nossa saudosa Mata Atlântica, misturando coqueiros com arvores de todas as espécies. Aqui vivemos como reis por doze dias, interrompidos apenas por uma curta viagem a ilha vizinha, a desértica Neil Island. Foi a primeira vez que fizemos amigos, muitos amigos, nessa viagem. Tornamo-nos seres ativamente sociais em Havelock,  buscando interação, bebendo, aproveitando a vida. Conhecemos pessoas maravilhosas, escrevemos, pintamos, dormimos e lemos. Tudo sem a pressão de conhecer nada, ainda que conhecendo tudo naturalmente. Ganhamos até uma trupe de simpáticos cachorros que nós seguia para qualquer lugar que fossemos da ilha: Caolha, Folgado, Pereba e A Simples. Confesso que nossos pulguentos mascotes foram uma difícil lição de desapego no dia em que fomos embora. Mas tudo foi, aquele lugar era muito incrível.

Na foto: eu, caolha em primeiro plano, e folgado se coçando ao meu lado

Mon amour explorando a vida marinha local...


    Mas é claro que nem tudo são flores na ilha. O lixo é uma questão muito séria em Andaman, e a quantidade de plástico assusta qualquer pessoa consciente da seriedade dessa questão. É um xadrez brabo. Não há nenhum tipo de consciência ambiental, os turistas são a única fonte de informação para a população local. A falta de estrutura governamental dificulta muito qualquer tentativa de tornar as ilhas mais limpar do que estão agora. Se você reclama do plástico na praia com os locais eles os queimam em fogueiras enormes e muito fedidas, se você os recolhe não tem onde enfia-los, então não há muito o que fazer além de observar o lixo se acumular na sua frente e rezar para que alguém um dia tenha o bom senso de fazer algo a respeito. Em Havelock, a ilha maior, já estávamos bastante impressionados. Mas foi quando chegamos a Neil Island que caiu a ficha. Suas praias oceânicas cheias de corais tem faixas de areia muito pequenas que já estão totalmente tomadas pelo lixo. É um paraíso indescritivel entregue ao descaso, rumo a completa destruição.
    
Falando em destruição: arvores derrubadas pela tsunami de 2008, 
que afetou violentamente as ilhas.

    Nossa viagem para Neil Island marcou um momento de total isolamento no ponto cronológico central da nossa estadia nas ilhas. Nunca vi um lugar tão vazio na minha vida inteira. Lá já não é um ponto muito popular, mas na baixa estação então se torna terra de ninguém. A população da ilha é de três mil habitantes e ela tem menos de sete km de extensão. Andando pela única estrada da ilha raramente se esbarra com alguém. Há pouquíssimas motos e menos carros ainda, certamente não passam de cem. Alugamos uma moto, mas conseguir combustível se revelou muito difícil, a oferta na ilha é bastante limitada. Se você quer almoçar deve fazer seu pedido com pelo menos três horas de antecedência no único restaurante que estava aberto, o Blue Sea. A comida não era lá essas coisas, mas acabamos fazendo amizade com o enigmático chefe - Balai - ainda que até hoje não tenhamos certeza se ele curtia ou detestava nossa presença lá. Por outro lado nosso hotel custava a bagatela de 150 rupias por noite, meros três dólares. É claro que se tratava de uma cabana modesta, com as paredes abertas e vazadas, mas por seis reais quem está checando? Nós não estávamos, então depois de três dias começamos a receber a visita de um simpático roedor, pena que a Maria não gostou muito dele. Detestou na verdade, então voltamos para Havelock Island.

A bela Neil Island...

A horrenda Neil Island.

     A verdade é que já havíamos deixado Havelock originalmente por causa de visitas semelhantes. Um pequeno camundongo começara a visitar nossa cabana e depois de alguns dias resolvemos que era razoável que seguíssemos em frente. Mas a mesma questão nos trouxe de volta a primeira ilha. A verdade é que não conseguimos fugir dos ratos em Andaman, mas que isso nunca foi um problema muito grande pra mim, problema foi quando apareceu uma barata dentro do meu saco de dormir. Isso sim foi um problema. Mas o que fazer quando se está num lugar onde a natureza é tão poderosa? Não há como fugir dos animais, nem do sol, nem do calor. Graças a Ganesa.

Nem só de animais desagradaveis é feita a ilha
aqui, as conchas se mexem!


     Foi muito difícil de ir embora. Em muitos sentidos. Chegamos novamente a Port Blair com nossos corações apertados de deixar aquele paraíso. Eu estava verdadeiramente tomado por uma nostalgia profunda, sempre que vivemos algo assim tão maravilhoso pra mim é igual. É muito fácil se desapegar de coisas desagradáveis, certo?  Mas não foi só isso. Ao chegarmos na capital das Andaman descobrimos que a empresa aérea tinha feito uma confusão e nossas passagens não tinham sido agendadas. Então se aprofundou o drama, além da dor de partir tivemos o desconforto de ter que passar duas noites naquele lugar arido, uma cidade cara e minima onde a Lan House com internet estilo conexão discada é o lugar mais interessante de se estar, e ainda tivemos que pagar duas vezes mais caro pela nossa passagem de volta, ja que ela foi comprada na última hora! Mas quer saber? Pouco importa, porque valeu a pena. Certamente valeu. Qualquer coisa teria valido a pena pelos dias mágicos que passamos em Andaman e Nicobar.


Pra não esquecer jamais.