Anjuna me fascina e assusta com
sua comercialização caótica da estética cyber-hindu do psy-trance. Desde minha
adolescência e até quem sabe antes eu fui seduzido por esse esoterismo barato.
Eu cresci com os cheiros de incensos legais e ilegais, restaurantes
vegetarianos à beira mar, os freaks que vêm em peregrinação de todas as partes
do mundo e o trance. Sempre um trance moendo, vinte e quatro horas por dia.
Essa minha intimidade com a logica interna do movimento transforma o meu olhar
sobre esse lugar.
Em Goa, mais especificamente nas
praias de Anjuna e Vagator, durante a década de oitenta um grupo de hippies
músicos imigrantes dos estados unidos e da Europa, dos quais Goa Gil era o mais
proeminente membro, entrou em contato com a música eletrônica e criou o que
hoje é conhecido como Psy-Trance. Mais do que um estilo musical, isso marcou o
nascimento de um movimento de contra-cultura que proliferou por todo o mundo. A
cultura psy mescla elementos do Techno europeu com o espiritualismo da religião
hindu e a moderna cultura psicodélica, além do que mais seus criadores desejarem
se apropriar. Seu ethos é naturalmente favorável à pirataria, já que o trance
nasceu e se desenvolveu como uma mistura constante de elementos roubados. Os tunes mesmo tinham esse caráter: fitas
DAT que vinham da Europa eram mixadas em aparelhagens gambiárricas, tudo
roubado, do beat ao mantra passando pelo hardware.
No Brasil como talvez muitos de
vocês saibam, o trance é bastante popular. A medida que você passeia em
festivais por todo o território nacional você certamente irá esbarrar com
milhares, se não milhões de imagens de devas do panteão Hindu. Nada mais
natural, uma vez que essa estética surgiu aqui na Índia. Mesmo assim eu sempre
me perguntei por que elementos da espiritualidade nacional não tinham sido
incorporados ao vocabulário místico do braço brasileiro da cena. Onde estava a
macumba, os catimbós, o daime? E o candomblé, as pajelanças? Isso era uma peça
que não se encaixava para mim, mas agora que cheguei à Índia, agora que cheguei
em Goa, tudo começa a fazer um pouco mais de sentido.
É evidente que a falta de
criatividade dos brasileiros ao não trazerem elementos próprios para uma
subcultura mundial que adentra o seu território pode ser vista como cretina. No
entanto, a profunda ligação do trance com a mentalidade Indiana, ou pelo menos
com uma concepção estrangeira apropriada dela, é inegável. Esse roubo no
entanto só se estende até o ponto onde os interessa, já que obviamente centenas
de seus aspectos moralmente desconfortáveis e restritivos não foram aglutinados
pelos chapados estrangeiros. Com certeza, pelo pouco que conheci desse país,
essa zoeira dionisíaca jamais seria tolerada pelos membros mais tradicionais da
sua sociedade. O que me faz me perguntar, com foi então que se abriu um espaço
pra isso acontecer nascer aqui?
Obtive essa resposta quando
cheguei em Goa e juntei algumas peças desse quebra-cabeças. Antes de vir para
cá toda vez que dizíamos para alguém que ja tivesse visitado a Índia que viríamos
a Goa eles nos alertavam: “Lá é muito bom, mas não é Índia. É outra coisa.” Não
foi difícil entender do que todos estavam falando. Deixamos a movimentada
Mumbai, florida dos mais diversos credos e culturas asiáticas, radicalmente
misógina e caótica e em doze horas de estrada foi como se tivéssemos chegado a
outro país. Nas pequenas ruas de Anjuna havia um numero bem maior de mulheres,
uma grande maioria de ocidentais, não havia as mesmas restrições de vestimenta
e muitas mulheres tomavam banho de biquíni na praia, algumas até fazendo top
less. No hotel encontramos um outro nível de limpeza, incomparável com os modos
de higiene que todos dizem encontrar no resto do pais. O clima também é mais
descontraído aqui. As tradições convivem em mais harmonia com as diferenças.
Goa é um pouco uma índia relaxada.
Alguns dados geográficos e
históricos: Goa é o menor estado da índia, uma unha de terra na beira do mar
arábico na sua costa oeste. Desde meados do século dezesseis ela foi tomada
pelos portugueses, tornando-se uma das diversas colônias de seu vasto império.
Manteve-se assim até mil novecentos e sessenta quando aproveitou uma carona no
movimento de libertação hindu e tornou-se parte da recém-formada republica. Por
conta da presença portuguesa, este é o único lugar em todo a península em que a
religiosidade católica convive com a maioria hindu em escala de semelhança. A
despeito de todos os detratores do catolicismo isso criou uma atmosfera mais
permissiva do que se encontra mesmo nos mais relaxados estados com inclinações
hindus. Essa hiato cultural criou um ambiente perfeito para que depois da década
de setenta uma série de estrangeiros encontrassem aqui um paraíso tropical no
meio de uma cultura exótica e vibrante. Essa imigração marcou profundamente o
lugar, transformando-o num receptivo balneário para as hordas de europeus e
asiáticos que vem para cá todo ano.
Foi em Goa que os primeiros techno-xamans dos beats
criaram o trance. Tudo se baseava na experiência transcendental do corpo em
movimento, na dança de Shiva Natarajh destruindo o mundo, acabando com os
ganas, os demônios do panteão Hindu. Entorpecido com a fumaça do Charas que vem
pelo Chillum, tradicional instrumento indiano para fumar a inebriante cera
preta, o deus Shiva se entorpece e dança. Uma espécie de Dioníso local, ele é o
deus dos artistas e dos ascetas. Dos yoguis e dos meditadores. Dos dançarinos e
dos atores. Ou nas bençãos de Ganesa, Hermes
dos trópicos, o mais sedutor dos deuses, a criança dourada que tudo dá com a
cabeça de elefante. Ou nos braços de Rudrá, a Deusa-Mãe guerreira que protege a
mente ferozmente de qualquer negatividade. Usando a química, o jejum e sua
biologia para chegar aos deuses, milhares de jovens acharam nesse esquema uma
saída para a secular sociedade ocidental. Foi nesse momento que a cultura
hippie setentista derivou para os modernos freaks, uma espécie de Techno-hippiesmo
cigano global de fim do século. Rasta-ravers pós-apocalípticos.
Quase trinta anos depois da
revolução eu chego a Anjuna Beach, Goa. Tendo sido criado a base de prog-trance
eu tinha que vir um dia aqui ver isso com meus próprios olhos. Meio como um
muçulmano tem de ir à meca, mas de forma mais descontraída. De algumas maneira
eu imaginava o que ia encontrar, mas a realidade é sempre um choque. Anjuna é a
única prova concreta do que o correr do nosso tempo é capaz de fazer com a
música eletrônica. Aqui não há mais espaço para especulação, o veredito está
dado. Diferentemente dos grandes festivais do mundo que são eventos transitórios,
Anjuna engessou-se como um lugar constantemente aprisionado entre a realidade mundana
e a exceção da festa. Mais do que isso, esse ambiente, seus habitantes e sua
geografia tiveram de buscar as formas necessárias para sobreviver ao agressivo
mundo do capitalismo globalizante. Se apropriar do trance foi o caminho mais
natural para Anjuna.
No dia em que chegamos aqui
conversamos com um Sérvio bastante simpático de uns vinte e poucos anos que nos
deu os informes sobre essa praia. “Essa é a pior praia em Goa, sinceramente eu
não sei nem o que eu estou fazendo aqui, só sei que vou embora amanhã. Se vocês
estão em lua de mel deveriam procurar Palolem ou Gokarna mais ao sul, é pra lá
que os Hippies foram. Isso aqui só tem Russos porcos e esse barulho tocando o dia
inteiro. Não existe paz aqui.” O cara tava meio afetado, além de odiar música
eletrônica, mas ele tinha uma certa razão. Todo mundo aqui parece odiar os
russos. Passar o dia inteiro sentado na praia nos rendeu uma série de encontros
com jovens meninas que vem de toda parte da índia em busca de emprego na
turística Goa. Elas queriam que nós comprássemos suas bugigangas, mas nós
acabávamos só conversando com elas. “Os russos não são amigáveis, eles não
ligam pra nossa cultura, vêm aqui e fazem o que querem” diziam as meninas, mais
constatando do que reclamando.
Desde que cheguei percebi a
presença massiva dos russos por aqui. Quase todos os flyers de festas que
recebemos eram escritos em alfabeto romano e cirílico, alguns nem se
preocupavam em colocar as informações em inglês. Eles andavam por toda parte,
magros ou gordos, homens e mulheres, sempre estranhos, sempre dissociados,
drogados e blasé. O russo aqui se apresenta como o arquétipo do turista-sombra
do capitalismo global. Aquele sujeito que chega num lugar e vai embora sem
deixar nem levar nada dentro de si. Aquele sujeito que usa o ambiente exótico
como uma extensão do seu próprio território sem perceber-se presente em um
ambiente cultural alheio. Essa aura dissociada é um sintoma obscuro da nossa sociedade
e um dado relevante ao se analisar a decadência de Anjuna, antiga capital dos
Techno-Hippies.
A verdade é que aqui nem festejar
mais se festeja da mesma forma. Quando a coisa estava na mão dos hippies é que
dava certo, eles sabiam o tipo de manobra necessária para apertar os botões das
pessoas. Não é que não hajam festas, mas o que se observa aqui é uma sombra da
potencialidade de uma rave. Está mais para uma Ibiza de pobre.
Numa das primeiras festas em que fui na minha
vida pude testemunhar uma das épicas apresentações do dinossauro da música
eletrônica: Goa Gil. Ele tocou por doze horas sem parar um trance violentamente
pesado, distorcido, poli-rítmico e surpreendente. Permeando as batidas uma
textura macabra e gasta lhe rendia vida, um ruído carismático e misterioso que
evoca uma futurista arqueologia sônica. A festa ainda não era um dos megaeventos
que reuniria milhares de ravers em lugares quentes e horríveis como o
Rio-Centro, difamando e marcando eternamente a cultura das festas no Brasil.
Era uma pequena congregação, escondida num sitio no meio de uma floresta. O
evento não havia sido divulgado exaustivamente, poucas pessoas sabiam dele. O
organizador certamente teve um prejuízo, mas
quem se importa? Era Goa Gil trazendo sua macumba pro Brasil. Lá, no
meio do mato, sob a copa das arvores, entre poucos e loucos: espontaneos,
festivos, e extáticos, obscuros, soturnos e drogados. Uma tribo temporária em
espontânea celebração religiosa, cheia de contradições, conflitos,
idiossincrasia, luz e sombra. Nessas festas os anjos e os demônios eram
convidados, todos alimentavam-se de
sonhada transcendência.
Uma imagem paradigmática da nossa
civilização torna-se visível para mim através das fumaças e das bola de cristal
de Anjuna. O arquétipo do dinheiro nivelador, a neutralidade financeira que
engole toda e qualquer atividade humana transformando-a num produto. As raves
foram um movimento cultural globalizado e como todo movimento ele chega ao seu
fim tendo mudado de alguma forma a sociedade. A sede turística do estado de Goa
foi voraz ao deglutir o neon e o anarquismo e transforma-lo em algo que a maior
parte das pessoas aguenta com algumas coisinhas que possam levar pra casa, como
um chillum, um vestidinho, uma estatueta do Ganesa ou qualquer outro “souvenir
hippie”. Daí os russos, e as boates a beira mar com suborno em dia para poder
fazer festa até cinco da manhã e “Come see my shop, i give you good price” na
boca das hordas de moças vendendo tralha. Assim como na distante década de sessenta quando
os jovens tomaram as ruas do Haight-Ashbury criando o Hippie, o tempo dissolveu
o que parecia uma utopia. Uma nova revolução nas rodas do destino e o novo
torna-se o velho. Mas há pelo menos uma coisa que ainda não pode ser
transformada em um produto: a emoção de estimular-se, a experiência de fazer
parte, o amor pelo mistério. Isso não encontramos mais em Goa.