quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sri Lanka


Gôlle Beach e um suspeito patriotismo...

Então, como se a India não fosse suficiente, logo agora quando enganávamos-nos que começávamos a entende-la, deixamos suas terras. Chegamos ao antigo Reino do Lanka: essa gota de terra pingando da ponta do sub-continente Índico. Aqui é diferente de lá, parece que as coisas estão mais limpas, mais organizadas. A etnia das pessoas é muito parecida com seus vizinhos do norte, mas com uma pequena adaptação. São seres humanos em muitos tons de pardo, de feições arábicas moldadas pela forte presença do sol e do mar. Como eu poderia saber sobre as coisas daqui? Da politica ou da cultura? Do ethos ou dos afetos? Esse é só um dos muitos lugares pelo qual passaremos. Só sei o que me aparece assim, nesse vislumbre. Talvez por termos acabado de sair da India eu esteja mal acostumado, mas ver a riqueza e a limpeza dessa cidade me levanta suspeitas. A quantidade de militares que vaga por ai também contribui para isso. O que será que se passa por trás dessa aparente calma militarizada? 

Pinho, Eu e Maria. Lua de Mel compartilhada.


Se a India era um mistério, imaginem esse lugar. Nossos nove dias aqui serão um suspiro, portanto, vivo um momento virtual: presente num lugar que nunca conhecerei. No entanto há algo por aqui que me seduz. Talvez seja isso mesmo, a irrealidade dessa situação: meu corpo em deleite num território que nunca sonhou pisar e o qual, me parece, nunca conhecerá. 

Esse estranhamento fez amanhecer uma percepção em mim. Tornei-me agudamente consciente da falácia que é acreditar que numa viagem você vai "conhecer a India", "conhecer o Sri Lanka", ou conhecer seja lá qual for o lugar que lhe seduz. O que ocorre quando você faz uma viagem dessas é uma chance de relação com indivíduos e espaços de sortes pouco familiares, e tudo que isso pode implicar. Esse me parece um mistério ainda mais vivo e estimulante do que a abstração platônica de conhecer uma nação.

E agora estamos aqui, para ver dessa terra e ouvir das pessoas do impensavel Sri Lanka.

É desrespeitoso tirar fotos de costas para o Buddha.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Cinema na Índia





    Ontem fomos ao cinema assistir a última estréia de Bollywood aqui em Mysore, “Kai Po Che”. O filme é um romance de formação, trágico como a maior parte dos dramas aqui são, com sobre-tons políticos e étnicos. Conta a história de três amigos Hindus viciados em criquet que abrem juntos uma academia e prosperam juntos até que algo acontece de radicalmente errado e trágico que muda suas vidas para sempre. A tragédia em foco foi um fato histórico, a chamada Revolta de Gujarat, um conflito Hindu-Muçulmano bastante sangrento que ocorreu em 2002.  O que mais me chamou a atenção no filme foi como seus conflitos não surgem na microesfera das relações pessoais, eles são problemas macrocósmicos que acabam governando as vidas dos indivíduos e levando-os à terríveis consequências. O que separa os amigos não são desentendimentos pessoais, mas etnias, religiões, castas, suas posturas e reações perante esses estabelecimentos da cultura indiana.
Ir ao cinema aqui na Índia é uma experiência muito divertida. Não existe aqui o mesmo decoro e cerimônia com a sala de exibição que eu sempre conheci no Brasil. As pessoas falam durante o filme, riem, gritam, aplaudem e vaiam. Elas levam seus bebês, que choram durante a sessão, para ver os filmes mais insólitos. Elas entram com pastéis vegetarianos, conhecidos aqui como samosas, que deixam o ambiente com um cheiro de comida insuportável. Talvez pra compensar o volume do som do filme é de uma altura constrangedora, chegamos a tomar um susto na nossa primeira sessão. Parece que é um caos insuportável mas não é bem assim. o que importa, no fim das contas, é que  eles vão ao cinema, e muito. Posso dizer que pelo que vi desse país até aqui suas paixões são: criquet, religião, pimenta e cinema. Acho que esse filme de ontem unia todas elas.


Trailer do filme Kai Po Che


Já é a terceira vez que vamos ao cinema desde que chegamos a Mysore. O ritmo turístico intenso da nossa viagem antes disso não abria muito espaço para esse tipo de atividade. Nos vinte e poucos dias que passamos aqui conseguimos nos estabelecer em uma rotina, de forma que abriu-se espaço para isso. Mais do que abrir-se espaço, uma necessidade foi criada. O tempo aqui nesse pais começou a incitar todo tipo de curiosidade em nós. Queremos entende-lo melhor: sua lógica, suas idiossincrasias, seus paradoxos. Em outras palavras: sua cultura. Para isso precisamos de todo tipo de mídia possível que nos permita nos aproximar dele. Compramos revistas, lemos jornais, ouvimos as músicas, andamos pela cidade, estou lendo o Mahabharatta, estou estudando Hindi, mas em se tratando de dois estudantes da sétima arte que janela poderia ser melhor do que o próprio Cinema?

Me tornei obcecado por absorver a cinematografia indiana e nesse meio tempo acabei descobrindo alguns fatos dos quais eu era totalmente ignorante. Diferentemente do que eu pensava o cinema indiano não é feito só de Bollywood. E como seria possível que fosse?  Num país tão plural como esse isso seria um absurdo. Existem mais de vinte e quatro línguas oficiais aqui nessa torre de babel, uma para cada estado da união, e muitas delas produzem seus próprios filmes. O Hindi, a língua de Bollywood e supostamente a língua oficial junto com o inglês não é tão falado aqui no sul, aonde o Tamil e o Telugu parecem ser as mais difundidas. No estado em que estamos, Karnataka, fala-se o Kannada. Enfim, o negócio é uma zona. Mas o fato é que em quase todas essas línguas existe uma produção cinematográfica. Chennai, a antiga cidade de Madras, tem uma indústria cinematográfica tão forte quanto Bollywood, ainda que sua produção seja em outra língua e seu alcance internacional seja incomparavelmente inferior. Tentar entender o cinema na índia é quase tão complexo quanto entender a própria India, mas eu vou aos poucos e quem sabe eu chego lá. Para tornar essa tarefa possível estamos devorando todo tipo de reportagem, artigo, vídeo no youtube, perfil do imdb, e o que mais encontro pelo caminho que me ajude a criar uma visão geral da coisa. Comprei dez filmes em dvd, fomos ao cinema três vezes e mais outros dez estão na minha lista de downloads prontos para descer para meu computador assim que encontrarmos uma internet gratuita e rápida por aí.

Trailer do filme ABCD, musical de dança.

Nesse meio tempo ja deu pra ter uma idéia da coisa toda. O esquema geral é meio parecido com o que encontramos no resto do mundo, adicionado das especificidades locais. No norte, em Bollywood, se produz o cinema pesadamente comercial. O capital financeiro esta violentamente investido nesse cinema que também é suportado pela estrutura governamental com isenções fiscais, etc. Parece que até a dinsey ta metida no negocio agora através da poderosa UTV, produtora responsável por dois dos três filmes que vimos no cinema aqui. Seus temas são aquele esquema do entreterimento usual: assuntos tratados de forma relativamente rasa - heróis, heroínas, romances, comédias, etc. Esse é o maior público, levando as vezes mais de 1 bilhão de pessoas ao cinema por ano. No sul se produz uma corrente mais independente de cinema, com viés mais politico e contestador, mas pelo que entendi com o crescimento do poder Bollywoodiano tem sido cada vez mais difícil pra essa secção do mercado continuar produzindo filmes. A velha história da indústria X produção independente, com o governo favorecendo aqueles que ja tem grana no bolso. Lembra alguma coisa, Globo filmes?
Saber dessas coisa é muito importante para mim. Tenho esse desejo de compreender aquilo que consumo, especialmente dentro da minha área de especialização. Mas no fim das contas quando vamos ao cinema aqui pouco importa se a fita é uma empreitada milionária e acéfala, independente e engajada ou qualquer coisa na área de cinza entre esses dois (como o filme de ontem parecia ser). Afinal de contas, os filmes aqui não tem legenda, mesmo com a profusão de línguas, e quando vamos ao cinema não conseguimos entender muito do que se esta sendo dito, ja que não compreendemos muito de Hindi (é impressionante o quanto se é possível entender de um filme sem compreender nada do que se diz nele!). A película acaba se tornando mais isso mesmo: uma janela para uma cultura que estamos ávidos pra absorver.
Luz, Camera, e Namaste!
Até breve!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013



aqui não tem geladeira. alugamos um ap sem geladeira e com um fogão de uma boca, mas que alimenta muito bem essa duas bocas. nossa vizinha guarda nossos itens de suma importância na sua geladeira, agora mesmo são morangos e iogurte. esses dias fui resgatar nosso iogurte no andar de baixo, enquanto a vizinha trazia-os da cozinha, eu fiquei reparando no altar que fica em frente à porta.  
ela tem um altar que fica num mini-cômodo de um metro quadrado, ou quase isso. é uma porta que resguarda o que eu chamo de sagrada família (e o joão não gosta...) : shiva, sua mulher, parvati, e seu filhinho com cabecinha de elefante, ganesha. 
quando veio o iogurte, eu agradeci e elogiei o cantinho sagrado. muito expontânea ela me perguntou se eu gostava dos deuses dela. mal sabe que por causa deles que estamos aqui. sim, aprecio e respeito muito o panteão hindu. não foi exatamente essa a minha resposta na hora, mas foi por ai.
e a india é assim também. suas tradições se mantém e são muito bem vistos aqueles que as apreciam.
o mesmo indiano que me fere na sua gana mercantilista, mw abençoa com sua crença milenar.
e quando os sentimentos se desgastam e a mente atrofia, shiva, parvati ou ganesha estão no meu próprio altar. 
a única razão da força de ganesha é a veemência com a qual os milhões de indianos o adoram e o mantém vivo há tanto tempo. devo então agradece-los pela grandiosidade do deus elefante. ele, na verdade, é o resultado do ethos com o qual seu povo o presenteou. 

joão e o virupaksha, de shiva

as cores do pooja (ritual)

a vista do templo do deus macaco, hanuman

eu e o grandão

templo de krishna, nenhum pode ser fotografado por dentro 


sai baba temple

monges no templo do consumo...

joão com nandi, o boi sagrado

chamundi, ou durga, deusa da força (gosto dela...)

o templo maior 



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

mad mary blues


vou me abrir com vocês aqui, afinal, uma das propostas de não divulgarmos nossa viajem convencionalmente no facebook também era de podermos nos expor para os nossos amigos e famílias. não é fácil se expor assim, mesmo para vocês. o ato escrito, preto no branco, mesmo digital e virtual ainda pede coragem.
e meu senso crítico ainda me lembra daquelas matérias tipo fantástico ou gnt, onde o repórter, em primeira pessoa, descreve o instigante foco da sua matéria. nada mais frágil, vazio e desinteressante. sim, sim, não devo presumir que este bloguinho seja um jornal ou qualquer destes posts tenham qualquer caráter de utilidade público.
assim sendo, eu, em pessoa, apresento-lhe, em primeira mão a seguinte história. versão integral. sem restrições (nem minhas, nem de vocês, né?). 

a formação em ciências sociais prevê, em tese (!),  a concepção, ao menos, de um tipo de indivíduo atento às emergências de estruturas sociais em sua volta. essas estruturas vão desde a construção uma nação inteira até às formas de se relacionar subjetivamente dos seres aqui em volta. eu, que curto o lévi-strauss, tenho uma visão que vai por ai.
dado essa intro, posso dizer que, como amante da antropologia, compreendo toda e qualquer forma de manifestação individual. ou social. ou cultural. estrutural... "tudo vale a pena"
de todos os conselhos que me deram antes de vir, que passavam por baratas e ratos, estupros, unhas pretas, dor-de-barriga, nenhum deles me falava do choque cultural com os indianos. talvez ninguém tenha imaginado esse ser o meu maior desconforto. 
(desconforto, na real, é a matéria prima do etnógrafo)
há muito mais coisas entre india e brasil do que sonhava minha vã filosofia...
talvez eu não consiga passar a ninguém do que se trate esse universo que nos separa. mas esta viajem está me trazendo aspectos da minha personalidade quem nem mesmo conseguia enxergar. já ouvi dizer que o ego é tudo aquilo com o qual você se identifica. estou conhecendo o meu...

a dificuldade em trocar aqui me derrota às vezes. ando por aqui buscando identidades supra nacionais e cada vez que encontro alguma, meu dia adormece melhor. pois as diferenças são incomensuráveis. 

primeira dificuldade, a língua. teoricamente o hindi e o inglês são as línguas oficiais juntamente com mais outras vinte. cada estado tem a sua língua local. na prática, quase ninguém fala hindi e o inglês é, na maioria das vezes, indecifrável. esta trava é a primordial. (o joão está estudando hindi pela internet)
segunda grande dificuldade, o machismo. aqui, comumente, as mulheres não são encaradas com sujeitas da ação. são sombras, numa boa, sem julgamentos. o papel da mulher aqui, me parece (e calma, só estou aqui há um mês, nada de certezas) ser conjugal/familiar, não é social.
terceiro grande assolador obstáculo, as negociações. o indiano quer saber de troca. não só comercial, maa qualquer tipo de troca. marx sabia bem qual era a natureza da troca, mas não aqui na india (eu acho). aqui a troca vai além do lucro e dos juros. para se chegar a eles, o comerciante gosta da conversa, do sorriso, do balancinho de cabeça. mas no fim das contas eles querem o dinheiro. então temos que negociar o preço da corrida do taxi, do aluguel do ap, da gorjeta! gringos pagam em euro, brasileiros, não. para eles, as bochechas rosadas do joão representam cifras, com as quais eu não quero lidar. temos muito chão pela frente, muita india para negociar, não podemos jogar tudo de uma vez. já falei disso aqui antes, da avidez pela moeda. tudo se cobra e por tudo tem que se pagar. 

juntando a impossibilidade de conversa por causa da língua, mais a ineficácia do papel feminino, resulta em histórias horrorosas de negociações hindo-brasileiras.  taxistas que nos ameaçam deixar no meio da estrada se não pagarmos a mais, outros que nos cobram três vezes mais diante da inexistência de outro transporte no local, brahmanes ("sacerdotes" dos templos) de cara feia com a nossa doação, motorista se passando por corretor de imóveis a fim de tirar uma porcentagem.  

a cada engodo minha cabeça ferve e tenho que lidar sozinha com a minha solidão. sim, porque para eles é normal que assim se suceda. eu não vou interferir em nada numa cultura tão densa. 
são entraves culturais. mais do que essas experiências trágicas que eu citei. é a forma de se relacionar daqui. muito mais profundo do que estas inúmeras linhas possam chegar. como eu disse, tudo se negocia, tudo se conversa. no fundo, é apenas mais uma forma da sua interação social, um traço (dominante?) dessa sociedade. o que isso desperta em mim, é problema meu. 

chamando um samba porque no brasil não temos um blues.

um vendedor amigo confeccionando incensos

cabelos que um vendedor tentou me fazer levar a qualquer preço

o da esquerda nos cobrou 10% do preço do aluguel do ap por ter nos dado uma dica

devaraja market, o maior de mysore

aqui enfrentamos um leão por dia

mas estamos preparados



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

vai passar

antes de ler, clique aqui

aqui não tem carnaval, mas a gente samba ainda sim
vamos com fé, com fé rir, viemos conferir!

saudades, minha gente. querendo, gostando ou não, a alma canta e eu sonho com o rio de janeiro nesse início de fevereiro.

aqui com muita música, magia e meditação pulamos (ou levitamos) nosso carnaval.
rei momo deu espaço ao lord shiva e no lugar lugar do confete e serpentina, nossas alegorias são as japamalas (aquele terço tipo budista) e os singing bowls (quem lembra daquele "sino redondo" que o joão tocou no casamento no início da cerimônia, antes que eu chegasse).  muita folia entre um ásana (ioga) e outro. o cortejo é diário, são 10 minutos entre nossa casinha e a Mystic School, onde praticamos dia-a-dia.








beijos de quem fica 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As sobras de Hampi


Já chegamos em Mysore há quase uma semana e desde então não atualizávamos nosso pequeno espaço virtual aqui com noticias. Vou manter o mistério e aproveitar para falar um pouquinho mais sobre Hampi, já que lá estávamos sem internet


Cavalgando com Vayú

Olha que novidade, aproveitei que cheguei na India e tirei carteira pra dirigir moto! Foi uma bagatela, todo o processo saiu por cinquenta centavos de dolar e ficou pronto em duas horas! Brincadeira gente, aqui ninguém tem carteira de motorista, fala sério! Nem o cara que dirigia nosso rickshaw tinha, que dirá os gringos que alugam motos por 4 reais a diária. A moto é o meio de transporte oficial em Hampi, e eu não pude perder a oportunidade de dirigir um pouquinho por aqui, onde as leis são mais flexíveis. Fiquei feliz de saber que não é em todo lugar do mundo que eu sou um desmotorizado. Viva a anarquia indiana!

Mon amour na frente do Virupaksha Temple, 
um templo de Shiva e o principal da cidade.

Depois de três dias invalidos por conta de uma gastrite compartilhada finalmente conseguimos chegar as ruas de Hampi. A cidade é um pedaço de terra fascinante, cravejado por pedregulhos gigantes e inexplicáveis e templos antigos e modernos para as mais variadas entidades e deuses do panteão Hindu. Aproveitamos para nos benzer em cada um deles, nós que conhecíamos e nos que desconhecíamos. Essa cidade é um ponto de peregrinação importantissimo do país, milhares de indianos vêm aqui todo ano tomar suas bençãos. Sabendo disso, não podíamos ficar de fora.


Esse aí no chão sou eu, à minha frente o maior Ganesha que já vi.

As arquiteturas são tão váriadas quanto os deuses desse paganismo ancião, temos desde templos rocambolescos do seculo dezesseis à santuários kitsch da decada de setenta, passando pelos mais pobres assentamentos e pelos mais suntuosos edificios.

Detalhe da arquitetura do desativado Templo de Krishna


No alto de 660 degraus, o templo de Hanuma, o deus macaco.


Alguns dos seus habitantes.


Eu, na frente do Breguérrimo templo do Shirdi Sai Baba 
(Não é o mesmo que o Satya Sai Baba, o cara dos incensos)

A India é um país muito pobre. Muito mais pobre do que eu poderia imaginar. Andar por aqui me fez apreciar um pouco mais as mudanças que vêm ocorrendo no Brasil de uns tempos pra cá. Fizemos um bom amigo,  o Alik. Ele era o motorista do nosso Auto-Rickshaw e um garoto muito bom de 21 anos de idade. Gentil, educado e de um ótimo coração. Enquanto nos levava de um lado pro outro nos ensinava um pouco de Hindi e Karala, as duas linguas locais. Ele ficou fascinado pela gente, achava que parecianos estrelas de Bollywood, nos ajudou quando estavamos na merda, acabou até nos dando seu chip de celular para que pudessemos usar a internet, já que agora estrangeiros foram proibidos de comprar chips de celular por aqui e haviamos comprado um modem 3G que necessitava de um. 

Quando estavamos indo embora perguntamos se ele tinha e-mail ou facebook para mantermos contato. Meio constrangido ele disse que não sabia mexer no computador. Foi ai que percebemos que ele sabia mexer sim, pois tinha até um celular. O problema é que apesar de poliglota (o cara falava fluentemente 4 linguas diferentes) ele era semi analfabeto. A tecnologia que lhe faltava para usar um computador não era a moderna maquina, mas sim a anciã escrita. Perguntamos se ele não poderia estudar ele disse que a escola para adultos aqui custava dez mil rúpias todo mês, muito mais do que o seu salari mensal de seis mil rúpias (aproximadamente 120,00 U$D).

Mary e Alic nos nossos momentos finais juntos.


É meus amigos, a pobreza é senhora. Desde que a grana é grana é assim. Vivemos em um mundo cão, vir ao canil só me faz perceber o quanto nasci um privilegiado. Como meu amigos Luis me disse outro dia numa conversa virtual: "eles são gado humano". Triste porém verdade, aqui na india não se come o gado, eles é que parece que são engolidos pela riqueza que nunca terão e que assistem ir e vir todo dia nas centenas de estrangeiros como nós, que vem observar o exotismo da miséria. O mais incrivel é ver a felicidade que eles exibem perante a dureza da sua vida. "I live a hard life, friend" dizia meu novo amigo com um sincero e profundo sorriso no rosto.

Vivamos esse paradoxo

Namastê e até breve!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Blow Up






Foto! Foto! Foto! Foto!
Não é à toa que eles têm a maior indústria cinematográfica do mundo, eles adoram a câmera!!!
Andamos por ai com a nossa máquina pendurada no pescoço, mas os paparazzi são eles, nos perseguem e perseguem a câmera. Querem muitas fotos, com muitas poses e eu, é claro, adoro!
A maioria crianças, inclusive umas de 60 ou 70 anos. 
Aqui não vimos quase ninguém com máquinas digitais ou celulares com lentes super potentes. Talvez esse seja um dos por quês do tamanhos dos sorrisos que abrem assim que se vêem nas telinhas. 
Queria muito uma polaroide para distribuir esses sorrisinhos por aqui!




domingo, 3 de fevereiro de 2013

ANJUNA 2013: vinte anos depois.



Anjuna me fascina e assusta com sua comercialização caótica da estética cyber-hindu do psy-trance. Desde minha adolescência e até quem sabe antes eu fui seduzido por esse esoterismo barato. Eu cresci com os cheiros de incensos legais e ilegais, restaurantes vegetarianos à beira mar, os freaks que vêm em peregrinação de todas as partes do mundo e o trance. Sempre um trance moendo, vinte e quatro horas por dia. Essa minha intimidade com a logica interna do movimento transforma o meu olhar sobre esse lugar.
Em Goa, mais especificamente nas praias de Anjuna e Vagator, durante a década de oitenta um grupo de hippies músicos imigrantes dos estados unidos e da Europa, dos quais Goa Gil era o mais proeminente membro, entrou em contato com a música eletrônica e criou o que hoje é conhecido como Psy-Trance. Mais do que um estilo musical, isso marcou o nascimento de um movimento de contra-cultura que proliferou por todo o mundo. A cultura psy mescla elementos do Techno europeu com o espiritualismo da religião hindu e a moderna cultura psicodélica, além do que mais seus criadores desejarem se apropriar. Seu ethos é naturalmente favorável à pirataria, já que o trance nasceu e se desenvolveu como uma mistura constante de elementos roubados. Os tunes mesmo tinham esse caráter: fitas DAT que vinham da Europa eram mixadas em aparelhagens gambiárricas, tudo roubado, do beat ao mantra passando pelo hardware.
No Brasil como talvez muitos de vocês saibam, o trance é bastante popular. A medida que você passeia em festivais por todo o território nacional você certamente irá esbarrar com milhares, se não milhões de imagens de devas do panteão Hindu. Nada mais natural, uma vez que essa estética surgiu aqui na Índia. Mesmo assim eu sempre me perguntei por que elementos da espiritualidade nacional não tinham sido incorporados ao vocabulário místico do braço brasileiro da cena. Onde estava a macumba, os catimbós, o daime? E o candomblé, as pajelanças? Isso era uma peça que não se encaixava para mim, mas agora que cheguei à Índia, agora que cheguei em Goa, tudo começa a fazer um pouco mais de sentido.
É evidente que a falta de criatividade dos brasileiros ao não trazerem elementos próprios para uma subcultura mundial que adentra o seu território pode ser vista como cretina. No entanto, a profunda ligação do trance com a mentalidade Indiana, ou pelo menos com uma concepção estrangeira apropriada dela, é inegável. Esse roubo no entanto só se estende até o ponto onde os interessa, já que obviamente centenas de seus aspectos moralmente desconfortáveis e restritivos não foram aglutinados pelos chapados estrangeiros. Com certeza, pelo pouco que conheci desse país, essa zoeira dionisíaca jamais seria tolerada pelos membros mais tradicionais da sua sociedade. O que me faz me perguntar, com foi então que se abriu um espaço pra isso acontecer nascer aqui?
Obtive essa resposta quando cheguei em Goa e juntei algumas peças desse quebra-cabeças. Antes de vir para cá toda vez que dizíamos para alguém que ja tivesse visitado a Índia que viríamos a Goa eles nos alertavam: “Lá é muito bom, mas não é Índia. É outra coisa.” Não foi difícil entender do que todos estavam falando. Deixamos a movimentada Mumbai, florida dos mais diversos credos e culturas asiáticas, radicalmente misógina e caótica e em doze horas de estrada foi como se tivéssemos chegado a outro país. Nas pequenas ruas de Anjuna havia um numero bem maior de mulheres, uma grande maioria de ocidentais, não havia as mesmas restrições de vestimenta e muitas mulheres tomavam banho de biquíni na praia, algumas até fazendo top less. No hotel encontramos um outro nível de limpeza, incomparável com os modos de higiene que todos dizem encontrar no resto do pais. O clima também é mais descontraído aqui. As tradições convivem em mais harmonia com as diferenças. Goa é um pouco uma índia relaxada.  
Alguns dados geográficos e históricos: Goa é o menor estado da índia, uma unha de terra na beira do mar arábico na sua costa oeste. Desde meados do século dezesseis ela foi tomada pelos portugueses, tornando-se uma das diversas colônias de seu vasto império. Manteve-se assim até mil novecentos e sessenta quando aproveitou uma carona no movimento de libertação hindu e tornou-se parte da recém-formada republica. Por conta da presença portuguesa, este é o único lugar em todo a península em que a religiosidade católica convive com a maioria hindu em escala de semelhança. A despeito de todos os detratores do catolicismo isso criou uma atmosfera mais permissiva do que se encontra mesmo nos mais relaxados estados com inclinações hindus. Essa hiato cultural criou um ambiente perfeito para que depois da década de setenta uma série de estrangeiros encontrassem aqui um paraíso tropical no meio de uma cultura exótica e vibrante. Essa imigração marcou profundamente o lugar, transformando-o num receptivo balneário para as hordas de europeus e asiáticos que vem para cá todo ano.
Foi em Goa que os primeiros techno-xamans dos beats criaram o trance. Tudo se baseava na experiência transcendental do corpo em movimento, na dança de Shiva Natarajh destruindo o mundo, acabando com os ganas, os demônios do panteão Hindu. Entorpecido com a fumaça do Charas que vem pelo Chillum, tradicional instrumento indiano para fumar a inebriante cera preta, o deus Shiva se entorpece e dança. Uma espécie de Dioníso local, ele é o deus dos artistas e dos ascetas. Dos yoguis e dos meditadores. Dos dançarinos e dos atores.  Ou nas bençãos de Ganesa, Hermes dos trópicos, o mais sedutor dos deuses, a criança dourada que tudo dá com a cabeça de elefante. Ou nos braços de Rudrá, a Deusa-Mãe guerreira que protege a mente ferozmente de qualquer negatividade. Usando a química, o jejum e sua biologia para chegar aos deuses, milhares de jovens acharam nesse esquema uma saída para a secular sociedade ocidental. Foi nesse momento que a cultura hippie setentista derivou para os modernos freaks, uma espécie de Techno-hippiesmo cigano global de fim do século. Rasta-ravers pós-apocalípticos.
Quase trinta anos depois da revolução eu chego a Anjuna Beach, Goa. Tendo sido criado a base de prog-trance eu tinha que vir um dia aqui ver isso com meus próprios olhos. Meio como um muçulmano tem de ir à meca, mas de forma mais descontraída. De algumas maneira eu imaginava o que ia encontrar, mas a realidade é sempre um choque. Anjuna é a única prova concreta do que o correr do nosso tempo é capaz de fazer com a música eletrônica. Aqui não há mais espaço para especulação, o veredito está dado. Diferentemente dos grandes festivais do mundo que são eventos transitórios, Anjuna engessou-se como um lugar constantemente aprisionado entre a realidade mundana e a exceção da festa. Mais do que isso, esse ambiente, seus habitantes e sua geografia tiveram de buscar as formas necessárias para sobreviver ao agressivo mundo do capitalismo globalizante. Se apropriar do trance foi o caminho mais natural para Anjuna.
No dia em que chegamos aqui conversamos com um Sérvio bastante simpático de uns vinte e poucos anos que nos deu os informes sobre essa praia. “Essa é a pior praia em Goa, sinceramente eu não sei nem o que eu estou fazendo aqui, só sei que vou embora amanhã. Se vocês estão em lua de mel deveriam procurar Palolem ou Gokarna mais ao sul, é pra lá que os Hippies foram. Isso aqui só tem Russos porcos e esse barulho tocando o dia inteiro. Não existe paz aqui.” O cara tava meio afetado, além de odiar música eletrônica, mas ele tinha uma certa razão. Todo mundo aqui parece odiar os russos. Passar o dia inteiro sentado na praia nos rendeu uma série de encontros com jovens meninas que vem de toda parte da índia em busca de emprego na turística Goa. Elas queriam que nós comprássemos suas bugigangas, mas nós acabávamos só conversando com elas. “Os russos não são amigáveis, eles não ligam pra nossa cultura, vêm aqui e fazem o que querem” diziam as meninas, mais constatando do que reclamando.
Desde que cheguei percebi a presença massiva dos russos por aqui. Quase todos os flyers de festas que recebemos eram escritos em alfabeto romano e cirílico, alguns nem se preocupavam em colocar as informações em inglês. Eles andavam por toda parte, magros ou gordos, homens e mulheres, sempre estranhos, sempre dissociados, drogados e blasé. O russo aqui se apresenta como o arquétipo do turista-sombra do capitalismo global. Aquele sujeito que chega num lugar e vai embora sem deixar nem levar nada dentro de si. Aquele sujeito que usa o ambiente exótico como uma extensão do seu próprio território sem perceber-se presente em um ambiente cultural alheio. Essa aura dissociada é um sintoma obscuro da nossa sociedade e um dado relevante ao se analisar a decadência de Anjuna, antiga capital dos Techno-Hippies.
A verdade é que aqui nem festejar mais se festeja da mesma forma. Quando a coisa estava na mão dos hippies é que dava certo, eles sabiam o tipo de manobra necessária para apertar os botões das pessoas. Não é que não hajam festas, mas o que se observa aqui é uma sombra da potencialidade de uma rave. Está mais para uma Ibiza de pobre.
 Numa das primeiras festas em que fui na minha vida pude testemunhar uma das épicas apresentações do dinossauro da música eletrônica: Goa Gil. Ele tocou por doze horas sem parar um trance violentamente pesado, distorcido, poli-rítmico e surpreendente. Permeando as batidas uma textura macabra e gasta lhe rendia vida, um ruído carismático e misterioso que evoca uma futurista arqueologia sônica. A festa ainda não era um dos megaeventos que reuniria milhares de ravers em lugares quentes e horríveis como o Rio-Centro, difamando e marcando eternamente a cultura das festas no Brasil. Era uma pequena congregação, escondida num sitio no meio de uma floresta. O evento não havia sido divulgado exaustivamente, poucas pessoas sabiam dele. O organizador certamente teve um prejuízo, mas  quem se importa? Era Goa Gil trazendo sua macumba pro Brasil. Lá, no meio do mato, sob a copa das arvores, entre poucos e loucos: espontaneos, festivos, e extáticos, obscuros, soturnos e drogados. Uma tribo temporária em espontânea celebração religiosa, cheia de contradições, conflitos, idiossincrasia, luz e sombra. Nessas festas os anjos e os demônios eram convidados, todos  alimentavam-se de sonhada transcendência.
Uma imagem paradigmática da nossa civilização torna-se visível para mim através das fumaças e das bola de cristal de Anjuna. O arquétipo do dinheiro nivelador, a neutralidade financeira que engole toda e qualquer atividade humana transformando-a num produto. As raves foram um movimento cultural globalizado e como todo movimento ele chega ao seu fim tendo mudado de alguma forma a sociedade. A sede turística do estado de Goa foi voraz ao deglutir o neon e o anarquismo e transforma-lo em algo que a maior parte das pessoas aguenta com algumas coisinhas que possam levar pra casa, como um chillum, um vestidinho, uma estatueta do Ganesa ou qualquer outro “souvenir hippie”. Daí os russos, e as boates a beira mar com suborno em dia para poder fazer festa até cinco da manhã e “Come see my shop, i give you good price” na boca das hordas de moças vendendo tralha.  Assim como na distante década de sessenta quando os jovens tomaram as ruas do Haight-Ashbury criando o Hippie, o tempo dissolveu o que parecia uma utopia. Uma nova revolução nas rodas do destino e o novo torna-se o velho. Mas há pelo menos uma coisa que ainda não pode ser transformada em um produto: a emoção de estimular-se, a experiência de fazer parte, o amor pelo mistério. Isso não encontramos mais em Goa.