sexta-feira, 10 de maio de 2013

De volta a Incrível Índia!


       Durante as últimas três semanas estivemos no paraíso e no inferno, e o nome desses dois lugares é Índia. Tudo começou quando deixamos Bangkok, nos idos dias de vinte de abril de dois mil e treze. Chegamos a enigmática Calcutá, casa da famosa Madre Teresa e de... mais nada? Pelo menos foi o que achamos quando chegamos lá. Quando saí do aeroporto, cansado da fanfarra turistica pela qual haviamos passado no último mês e meio, proferi: "Quer saber, fodam-se esses asiáticos, eu prefiro a Índia, pode me trazer a sujeira, a pobreza, a brutalidade!". Parecia que essa terra poderosa estava disposta a por a prova minha afirmação. Kolkatta, como ela é conhecida agora, foi porrada atrás de porrada. Cada tentativa nossa de fazer qualquer coisa, de nos movimentarmos, de realizar tarefas básicas e necessárias, era saudada com as mais infinitas dificuldades. Ficamos lá por três dias, acreditávamos que seria tempo o suficiente para realizar nossas pequenas obrigações (enviar algumas coisas pro Brasil via correio aéreo e conseguir um chip de celular para usar internet) e conhecer a cidade. Grande engano. Demoramos três dias completos para realizar essas duas simples tarefas, ao final do qual estávamos completamente exaustos. Da cidade nada conseguimos ver, mas a verdade é que não lamentamos muito isso.

Decadence sans elegance

        Kolkata parece um pouco uma versão perversa e ainda mais decadente de Cuba, ou pelo menos da imagem que a desconhecida Havana ocupa no meu inconsciente. A impressão que se tem ali é a de que todo e qualquer investimento em aparelhagem urbana foi encerrado no fim da década de sessenta. Os taxis fedem a fusca velho - gasolina com ferrugem - e são todos o mesmo modelo, um banheirão muito do clássico produzido pela HM, a Hindustan Motors. Os onibus são de madeira, não tem janela, e suas paredes estão se despedaçando. Nas ruas não há calçadas, e quando há você deseja que não houvessem. A pobreza abunda, a miséria não é só financeira, sente-se acima de tudo na completa falta de educação dos seres que habitam aquele espaço. Eles se tornaram totalmente embrutecidos pela fuligem, pelo barulho, pelo sujeira. Kolkata é a segunda cidade que mais produz lixo na india, são mais de oito mil toneladas por dia. Mais do que qualquer outra coisa o que mais se depredou nesse ambiente violento foram as relações humanas. No auge da Babel que é o transito local, tentávamos nos localizar em busca da agência dos correios na central Park Avenue. Nosso taxista não entendia nada do que dizíamos e parecia não ter muita paciência para a violenta barreira de linguagem que nos separava. Numa tentativa de achar o lugar (que me parecia que ele deveria saber de cor já que era a principal agencia de correio da cidade) um outro taxi passa e arranca fora seu para-choques na maior violência e vai embora, como se nada tivesse acontecido. O homem xinga muito, esta revoltado, mas a bem da verdade não há nada que ele possa fazer no meio daquele caos. Como uma pessoa assim pode exibir qualquer tipo de gentileza perante o próximo?


Esse sujeito, na verdade, era muito simpático.

        Finalmente partimos, e muito felizes, nem a casa da Madre, o único ponto de interesse do qual ouvimos falar, conseguimos ver. Azar, pensamos, mas a bem da verdade queríamos ver aquela cidade pelas costas o mais rápido possível, e foi o que conseguimos. Depois que chegamos a Havelock, no paradisíaco arquipelago de Andaman, conhecemos um cidadão de Calcutá que nós disse que a cidade é um dos pontos culturais mais importantes da Índia. Uma cidade de teatro e música, a antiga capital da Índia. Pena que a dureza de seu ambiente não  permitiu que isso ficasse visível. Vida que segue.
      Mas por que foi mesmo que resolvemos ir para esse lugar infernal? Ah sim! Andaman Islands! Lá no dia em que nos deu a louca no Laos, quando decidimos que aquela viagem não era nada do que desejávamos, olhamos no mapa e pensamos: qual é o local mais isolado que podemos ir? Para onde é que ninguem mais vai? Onde é que poderemos ficar tranquilos, lendos, escrevendo, meditando, estudando... em paz?! Vimos um arquipélago no meio do oceano indico - que porra de lugar é esse? Ilhas de Andamão. Me lembrei da referência do amigo Nicola,  e na hora decidimos: é pra lá que vamos. Não poderiamos ter acertado mais.

Podiamos?

      Como sempre nesse país louco, não chegaríamos ao paraíso sem sofrer um pouco antes. Então depois de Kolkatta chegamos a capital da ilha para descobrir um outro lugar simplesmente bizarro. Port Blair é uma cidade pequena, cem mil habitantes, e da uma sensação mais ou menos parecida com o centro de Madureira adicionada a uma vibe pescador muçulmano. Não há muito o que fazer por lá, é um lugar pobre e cinza e o melhor restaurante da cidade é uma bosta completa. Não adianta espernear, o único motivo para se estar ali, ao menos que você seja obrigado, é para alcançar as outras ilhas. Mas isso também não é tão fácil quanto pode parecer. Chegamos lá no sábado, e apesar do ferry funcionar todos os dias e do barco no dia seguinte não estar cheio, a bilheteria só funcionava nos dias de semana. Então no domingo, desesperados com a possibilidade de ter que passar mais um dia na insossa Port Blair, acordamos as quatro e meia da manhã e tivemos que subornar um funcionário do porto local para conseguir entrar no último segundo na barca para o principal destino do arquipélago: a ilha de Havelock.

Nesse pais as coisas estão de pernas pro ar...

     Enfim, chegamos. Aqui não havia mais nada que poderíamos querer. Posso dizer sem medo que esse foi o ponto alto da nossa viagem. De todos os lugares incríveis que conhecemos esse foi o maior! Uma ilhota que se cruza de moto em meia hora com aguas azul turquesa cristalina, um coro constante e transcendental de cigarras, coqueiros e uma mata que lembrava nossa saudosa Mata Atlântica, misturando coqueiros com arvores de todas as espécies. Aqui vivemos como reis por doze dias, interrompidos apenas por uma curta viagem a ilha vizinha, a desértica Neil Island. Foi a primeira vez que fizemos amigos, muitos amigos, nessa viagem. Tornamo-nos seres ativamente sociais em Havelock,  buscando interação, bebendo, aproveitando a vida. Conhecemos pessoas maravilhosas, escrevemos, pintamos, dormimos e lemos. Tudo sem a pressão de conhecer nada, ainda que conhecendo tudo naturalmente. Ganhamos até uma trupe de simpáticos cachorros que nós seguia para qualquer lugar que fossemos da ilha: Caolha, Folgado, Pereba e A Simples. Confesso que nossos pulguentos mascotes foram uma difícil lição de desapego no dia em que fomos embora. Mas tudo foi, aquele lugar era muito incrível.

Na foto: eu, caolha em primeiro plano, e folgado se coçando ao meu lado

Mon amour explorando a vida marinha local...


    Mas é claro que nem tudo são flores na ilha. O lixo é uma questão muito séria em Andaman, e a quantidade de plástico assusta qualquer pessoa consciente da seriedade dessa questão. É um xadrez brabo. Não há nenhum tipo de consciência ambiental, os turistas são a única fonte de informação para a população local. A falta de estrutura governamental dificulta muito qualquer tentativa de tornar as ilhas mais limpar do que estão agora. Se você reclama do plástico na praia com os locais eles os queimam em fogueiras enormes e muito fedidas, se você os recolhe não tem onde enfia-los, então não há muito o que fazer além de observar o lixo se acumular na sua frente e rezar para que alguém um dia tenha o bom senso de fazer algo a respeito. Em Havelock, a ilha maior, já estávamos bastante impressionados. Mas foi quando chegamos a Neil Island que caiu a ficha. Suas praias oceânicas cheias de corais tem faixas de areia muito pequenas que já estão totalmente tomadas pelo lixo. É um paraíso indescritivel entregue ao descaso, rumo a completa destruição.
    
Falando em destruição: arvores derrubadas pela tsunami de 2008, 
que afetou violentamente as ilhas.

    Nossa viagem para Neil Island marcou um momento de total isolamento no ponto cronológico central da nossa estadia nas ilhas. Nunca vi um lugar tão vazio na minha vida inteira. Lá já não é um ponto muito popular, mas na baixa estação então se torna terra de ninguém. A população da ilha é de três mil habitantes e ela tem menos de sete km de extensão. Andando pela única estrada da ilha raramente se esbarra com alguém. Há pouquíssimas motos e menos carros ainda, certamente não passam de cem. Alugamos uma moto, mas conseguir combustível se revelou muito difícil, a oferta na ilha é bastante limitada. Se você quer almoçar deve fazer seu pedido com pelo menos três horas de antecedência no único restaurante que estava aberto, o Blue Sea. A comida não era lá essas coisas, mas acabamos fazendo amizade com o enigmático chefe - Balai - ainda que até hoje não tenhamos certeza se ele curtia ou detestava nossa presença lá. Por outro lado nosso hotel custava a bagatela de 150 rupias por noite, meros três dólares. É claro que se tratava de uma cabana modesta, com as paredes abertas e vazadas, mas por seis reais quem está checando? Nós não estávamos, então depois de três dias começamos a receber a visita de um simpático roedor, pena que a Maria não gostou muito dele. Detestou na verdade, então voltamos para Havelock Island.

A bela Neil Island...

A horrenda Neil Island.

     A verdade é que já havíamos deixado Havelock originalmente por causa de visitas semelhantes. Um pequeno camundongo começara a visitar nossa cabana e depois de alguns dias resolvemos que era razoável que seguíssemos em frente. Mas a mesma questão nos trouxe de volta a primeira ilha. A verdade é que não conseguimos fugir dos ratos em Andaman, mas que isso nunca foi um problema muito grande pra mim, problema foi quando apareceu uma barata dentro do meu saco de dormir. Isso sim foi um problema. Mas o que fazer quando se está num lugar onde a natureza é tão poderosa? Não há como fugir dos animais, nem do sol, nem do calor. Graças a Ganesa.

Nem só de animais desagradaveis é feita a ilha
aqui, as conchas se mexem!


     Foi muito difícil de ir embora. Em muitos sentidos. Chegamos novamente a Port Blair com nossos corações apertados de deixar aquele paraíso. Eu estava verdadeiramente tomado por uma nostalgia profunda, sempre que vivemos algo assim tão maravilhoso pra mim é igual. É muito fácil se desapegar de coisas desagradáveis, certo?  Mas não foi só isso. Ao chegarmos na capital das Andaman descobrimos que a empresa aérea tinha feito uma confusão e nossas passagens não tinham sido agendadas. Então se aprofundou o drama, além da dor de partir tivemos o desconforto de ter que passar duas noites naquele lugar arido, uma cidade cara e minima onde a Lan House com internet estilo conexão discada é o lugar mais interessante de se estar, e ainda tivemos que pagar duas vezes mais caro pela nossa passagem de volta, ja que ela foi comprada na última hora! Mas quer saber? Pouco importa, porque valeu a pena. Certamente valeu. Qualquer coisa teria valido a pena pelos dias mágicos que passamos em Andaman e Nicobar.


Pra não esquecer jamais.





5 comentários:

  1. ai, eu quero a caolha,o folgado, a pereba e a simples!
    desejo a vcs, realmente, o encontro com uma cama limpa, num quarto limpo e ventilado, com boa comida e melhor ainda bebida!
    bjs
    titia maria BRASIL, chega de ÍNDIA!

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  2. A incrível Índia, impressiona e é indispensável. Viajando junto nesse blog passaporte carimbado pro lado de lá do mundo. Adorando.

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  3. Caramba!!! Que viagem...em todos os sentidos!! Isso é uma saga de experimentos! Estou exausto por vcs! e cansado tb da porra da saudades! Voltem logo

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