segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

mad mary blues


vou me abrir com vocês aqui, afinal, uma das propostas de não divulgarmos nossa viajem convencionalmente no facebook também era de podermos nos expor para os nossos amigos e famílias. não é fácil se expor assim, mesmo para vocês. o ato escrito, preto no branco, mesmo digital e virtual ainda pede coragem.
e meu senso crítico ainda me lembra daquelas matérias tipo fantástico ou gnt, onde o repórter, em primeira pessoa, descreve o instigante foco da sua matéria. nada mais frágil, vazio e desinteressante. sim, sim, não devo presumir que este bloguinho seja um jornal ou qualquer destes posts tenham qualquer caráter de utilidade público.
assim sendo, eu, em pessoa, apresento-lhe, em primeira mão a seguinte história. versão integral. sem restrições (nem minhas, nem de vocês, né?). 

a formação em ciências sociais prevê, em tese (!),  a concepção, ao menos, de um tipo de indivíduo atento às emergências de estruturas sociais em sua volta. essas estruturas vão desde a construção uma nação inteira até às formas de se relacionar subjetivamente dos seres aqui em volta. eu, que curto o lévi-strauss, tenho uma visão que vai por ai.
dado essa intro, posso dizer que, como amante da antropologia, compreendo toda e qualquer forma de manifestação individual. ou social. ou cultural. estrutural... "tudo vale a pena"
de todos os conselhos que me deram antes de vir, que passavam por baratas e ratos, estupros, unhas pretas, dor-de-barriga, nenhum deles me falava do choque cultural com os indianos. talvez ninguém tenha imaginado esse ser o meu maior desconforto. 
(desconforto, na real, é a matéria prima do etnógrafo)
há muito mais coisas entre india e brasil do que sonhava minha vã filosofia...
talvez eu não consiga passar a ninguém do que se trate esse universo que nos separa. mas esta viajem está me trazendo aspectos da minha personalidade quem nem mesmo conseguia enxergar. já ouvi dizer que o ego é tudo aquilo com o qual você se identifica. estou conhecendo o meu...

a dificuldade em trocar aqui me derrota às vezes. ando por aqui buscando identidades supra nacionais e cada vez que encontro alguma, meu dia adormece melhor. pois as diferenças são incomensuráveis. 

primeira dificuldade, a língua. teoricamente o hindi e o inglês são as línguas oficiais juntamente com mais outras vinte. cada estado tem a sua língua local. na prática, quase ninguém fala hindi e o inglês é, na maioria das vezes, indecifrável. esta trava é a primordial. (o joão está estudando hindi pela internet)
segunda grande dificuldade, o machismo. aqui, comumente, as mulheres não são encaradas com sujeitas da ação. são sombras, numa boa, sem julgamentos. o papel da mulher aqui, me parece (e calma, só estou aqui há um mês, nada de certezas) ser conjugal/familiar, não é social.
terceiro grande assolador obstáculo, as negociações. o indiano quer saber de troca. não só comercial, maa qualquer tipo de troca. marx sabia bem qual era a natureza da troca, mas não aqui na india (eu acho). aqui a troca vai além do lucro e dos juros. para se chegar a eles, o comerciante gosta da conversa, do sorriso, do balancinho de cabeça. mas no fim das contas eles querem o dinheiro. então temos que negociar o preço da corrida do taxi, do aluguel do ap, da gorjeta! gringos pagam em euro, brasileiros, não. para eles, as bochechas rosadas do joão representam cifras, com as quais eu não quero lidar. temos muito chão pela frente, muita india para negociar, não podemos jogar tudo de uma vez. já falei disso aqui antes, da avidez pela moeda. tudo se cobra e por tudo tem que se pagar. 

juntando a impossibilidade de conversa por causa da língua, mais a ineficácia do papel feminino, resulta em histórias horrorosas de negociações hindo-brasileiras.  taxistas que nos ameaçam deixar no meio da estrada se não pagarmos a mais, outros que nos cobram três vezes mais diante da inexistência de outro transporte no local, brahmanes ("sacerdotes" dos templos) de cara feia com a nossa doação, motorista se passando por corretor de imóveis a fim de tirar uma porcentagem.  

a cada engodo minha cabeça ferve e tenho que lidar sozinha com a minha solidão. sim, porque para eles é normal que assim se suceda. eu não vou interferir em nada numa cultura tão densa. 
são entraves culturais. mais do que essas experiências trágicas que eu citei. é a forma de se relacionar daqui. muito mais profundo do que estas inúmeras linhas possam chegar. como eu disse, tudo se negocia, tudo se conversa. no fundo, é apenas mais uma forma da sua interação social, um traço (dominante?) dessa sociedade. o que isso desperta em mim, é problema meu. 

chamando um samba porque no brasil não temos um blues.

um vendedor amigo confeccionando incensos

cabelos que um vendedor tentou me fazer levar a qualquer preço

o da esquerda nos cobrou 10% do preço do aluguel do ap por ter nos dado uma dica

devaraja market, o maior de mysore

aqui enfrentamos um leão por dia

mas estamos preparados



11 comentários:

  1. Maria linda. Emocionante seu relato. Instigante na provocação e emocionante no relato de uma realidade tão forte. Realmente o choque cultural que vc relata, deveria ser uma das nossas maiores preocupações. Mas como saber? Só convivendo. Kibon que vc consegue manter seu "norte" firme e enxergar essa realidade com um senso crítico apurado. Se possível for, gostaria de saber (eu tenho que perguntar, né?) se o Gandhi ainda é um líder de referência. Suas idéias e ações deixaram marcas? A impressão que vcs me passam é que a pouca formação educacional é determinante na expressão cultural e social desse povo. É isso mesmo? Me parece que vcs estão percorrendo uma região parecida com o norte e nordeste do Brasil. É como vcs estivessem numa sucursal do Maranhão. Ou pior que isso. (Nossa... nem consigo imaginar isso)Eu acho que vcs deveriam divulgar esse blog nas redes sociais. Seu texto é muito bom. Kibon que vc puxou a sua mãe. Ela é um dos melhores textos (escritora) que já conheci. Escreva mais. Impressionante que o texto do jão é excelente também. caracas... ki dupla... rsrsrs. Mas dividir essa experiência de vcs com todos pode proporcionar uma experiência interessante. Pensem nisso. Ler depois do fim da viajem, não é a mesma coisa de acompanhar "ao vivo". O problema é o feed-back. Mas ai... fazer o que, né? Bjs... Nossa... virei seu fã... Vc é muito mais inteligente do que eu enxergava. rsrsrs Bjs orgulhosos. (Tá bom... eu não deveria fazer esse tipo de comentário...hehehehe mas fazer o que? Ser verdadeiro na vida é?... Bjs 2... Ti amo!

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  2. Gente... que cara é essa a do João. Esse bigode e costeletas... parece até personagem de filme de faroeste de Sérgio Leone! rsrsrs Ou ele quer ficar parecido com o povo daí? rsrsrsr Papi

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  3. Bom artigo, Maria. Você escreve muito bem e nos coloca na cena do roteiro de vocês, uma história com Jol Pitt e Maria Jolie, em busca da Lótus negociada. Adoro a Índia!

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  4. xiii, esse texto mudou o tom do blog... então acompanho. e já q blog é vapt vupt, resumo assim sua questão marxstraussiana: isso tudo se justifica pela miséria, miséria oriunda do capitalismo, capitalismo gerador da mais valia, mais valia q fica pra europa chique, europa chique q deixa o resto, a sobra, o lixo para a índia, índia q vcs estão visitando (?!).
    gostei do estilo latino mexicano do joão. chega dessa coisa hindu!
    bjs titia

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  5. Hi o negócio ficou denso e profundo...Eu já era fã de carteirinha dos texto de Jol Pitt e agora me encantei com o texto de Maria Jolie, uma dupla "do barulho". A Índia também é aqui!

    चुम्बन अम्माँ (tradução: beijo da mamãe)

    PS: A partir de agora vou escrever tudo em Hindi, já que o João está estudando vou colaborar para agilizar o seu aprendizado. Hahahaha

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  6. Prima, as vezes leio o blog e fico feliz por vocês! A saudade é grande, mas a felicidade pela experiência que vocês estão passando é maior ainda. Acabo de ler seu texto, e antes o do joao, sao incríííveis. Me identifiquei muito com seu texto, afial mesmo sendo COMPLETAMENTE DIFERENTE, tive sensações parecidas com as suas, na fria europa que acabei de conhecer... que loucura!
    "ando por aqui buscando identidades supra nacionais e cada vez que encontro alguma, meu dia adormece melhor. pois as diferenças são incomensuráveis. " Total!!!!

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  7. Mari e João,
    quando fui a Bolovia senti muito do que vc falou, a negociação, as mulheres na sombra... não foi preciso nem cruzar os oceanos. É incrivel como uma linha imaginaria muda todo um Ser.

    Agora aqui na Italia vivo muito o contrario, não existe problema com a lingua, não existe negociação, não existe sorriso e nem interesse. Não existe nada, eles se fecham neles mesmo, e com isso só perdem o samba!

    Domi

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  8. ps: Mari vc devia ter comprado o cabelo ahahha
    Domi

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    1. Engraçado mas quando vocês somem pelo mundo a sensação que a gente tem é que apenas 'sumiram ali pelas lapas da vida' e estão demorando pra voltarrr. É pilha, é pilha...

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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