Ontem fomos ao cinema assistir a última estréia de Bollywood aqui em Mysore, “Kai Po Che”. O filme é um romance de formação, trágico como a maior parte dos dramas aqui são, com sobre-tons políticos e étnicos. Conta a história de três amigos Hindus viciados em criquet que abrem juntos uma academia e prosperam juntos até que algo acontece de radicalmente errado e trágico que muda suas vidas para sempre. A tragédia em foco foi um fato histórico, a chamada Revolta de Gujarat, um conflito Hindu-Muçulmano bastante sangrento que ocorreu em 2002. O que mais me chamou a atenção no filme foi como seus conflitos não surgem na microesfera das relações pessoais, eles são problemas macrocósmicos que acabam governando as vidas dos indivíduos e levando-os à terríveis consequências. O que separa os amigos não são desentendimentos pessoais, mas etnias, religiões, castas, suas posturas e reações perante esses estabelecimentos da cultura indiana.
Ir ao cinema aqui na Índia é uma
experiência muito divertida. Não existe aqui o mesmo decoro e cerimônia com a
sala de exibição que eu sempre conheci no Brasil. As pessoas falam durante o
filme, riem, gritam, aplaudem e vaiam. Elas levam seus bebês, que choram
durante a sessão, para ver os filmes mais insólitos. Elas entram com pastéis
vegetarianos, conhecidos aqui como samosas, que deixam o ambiente com um cheiro
de comida insuportável. Talvez pra compensar o volume do som do filme é de uma altura constrangedora, chegamos a tomar um susto na nossa primeira sessão. Parece que é um caos insuportável mas não é bem assim. o que importa, no fim das
contas, é que eles vão ao cinema, e muito. Posso dizer que pelo que vi desse país até aqui suas paixões são: criquet,
religião, pimenta e cinema. Acho que esse filme de ontem unia todas elas.
Trailer do filme Kai Po Che
Já é a terceira vez que vamos ao cinema desde que chegamos a Mysore. O ritmo turístico intenso da nossa viagem antes disso não abria muito espaço para esse tipo de atividade. Nos vinte e poucos dias que passamos aqui conseguimos nos estabelecer em uma rotina, de forma que abriu-se espaço para isso. Mais do que abrir-se espaço, uma necessidade foi criada. O tempo aqui nesse pais começou a incitar todo tipo de curiosidade em nós. Queremos entende-lo melhor: sua lógica, suas idiossincrasias, seus paradoxos. Em outras palavras: sua cultura. Para isso precisamos de todo tipo de mídia possível que nos permita nos aproximar dele. Compramos revistas, lemos jornais, ouvimos as músicas, andamos pela cidade, estou lendo o Mahabharatta, estou estudando Hindi, mas em se tratando de dois estudantes da sétima arte que janela poderia ser melhor do que o próprio Cinema?
Me tornei obcecado por absorver a
cinematografia indiana e nesse meio tempo acabei descobrindo alguns fatos dos
quais eu era totalmente ignorante. Diferentemente do que eu pensava o cinema
indiano não é feito só de Bollywood. E como seria possível que fosse? Num país tão plural como esse isso seria um
absurdo. Existem mais de vinte e quatro línguas oficiais aqui nessa torre de
babel, uma para cada estado da união, e muitas delas produzem seus próprios
filmes. O Hindi, a língua de Bollywood e supostamente a língua oficial junto
com o inglês não é tão falado aqui no sul, aonde o Tamil e o Telugu parecem ser
as mais difundidas. No estado em que estamos, Karnataka, fala-se o Kannada.
Enfim, o negócio é uma zona. Mas o fato é que em quase todas essas línguas
existe uma produção cinematográfica. Chennai, a antiga cidade de Madras, tem
uma indústria cinematográfica tão forte quanto Bollywood, ainda que sua
produção seja em outra língua e seu alcance internacional seja incomparavelmente
inferior. Tentar entender o cinema na índia é quase tão complexo quanto
entender a própria India, mas eu vou aos poucos e quem sabe eu chego lá. Para
tornar essa tarefa possível estamos devorando todo tipo de reportagem, artigo,
vídeo no youtube, perfil do imdb, e o que mais encontro pelo caminho que me
ajude a criar uma visão geral da coisa. Comprei dez filmes em dvd, fomos ao
cinema três vezes e mais outros dez estão na minha lista de downloads prontos
para descer para meu computador assim que encontrarmos uma internet gratuita e
rápida por aí.
Nesse meio tempo ja deu pra ter
uma idéia da coisa toda. O esquema geral é meio parecido com o que encontramos
no resto do mundo, adicionado das especificidades locais. No norte, em
Bollywood, se produz o cinema pesadamente comercial. O capital financeiro esta
violentamente investido nesse cinema que também é suportado pela estrutura
governamental com isenções fiscais, etc. Parece que até a dinsey ta metida no
negocio agora através da poderosa UTV, produtora responsável por dois dos três filmes
que vimos no cinema aqui. Seus temas são aquele esquema do entreterimento
usual: assuntos tratados de forma relativamente rasa - heróis, heroínas,
romances, comédias, etc. Esse é o maior público, levando as vezes mais de 1
bilhão de pessoas ao cinema por ano. No sul se produz uma corrente mais
independente de cinema, com viés mais politico e contestador, mas pelo que
entendi com o crescimento do poder Bollywoodiano tem sido cada vez mais difícil
pra essa secção do mercado continuar produzindo filmes. A velha história da indústria
X produção independente, com o governo favorecendo aqueles que ja tem grana no
bolso. Lembra alguma coisa, Globo filmes?
Saber dessas coisa é muito
importante para mim. Tenho esse desejo de compreender aquilo que consumo,
especialmente dentro da minha área de especialização. Mas no fim das contas
quando vamos ao cinema aqui pouco importa se a fita é uma empreitada milionária
e acéfala, independente e engajada ou qualquer coisa na área de cinza entre
esses dois (como o filme de ontem parecia ser). Afinal de contas, os filmes
aqui não tem legenda, mesmo com a profusão de línguas, e quando vamos ao cinema
não conseguimos entender muito do que se esta sendo dito, ja que não compreendemos
muito de Hindi (é impressionante o quanto se é possível entender de um filme
sem compreender nada do que se diz nele!). A película acaba se tornando mais
isso mesmo: uma janela para uma cultura que estamos ávidos pra absorver.
Luz, Camera, e Namaste!
Até breve!
ah, a pergunta estava pronta até eu chegar ao finalzinho do texto: por q haveria legenda em inglês? não há! isso é uma bela experiência de linguagem! em copenhagen, assisti um filme coreano com legendas em dinamarquês; depois revi no brasil com legendas em português. a primeira versão era bem melhor.
ResponderExcluiristo não é um blog; isso é uma coletânea de ensaios: a música eletrônica, o cinema indiano, o ethos hindu, a casta misógina... tô me divertindo!
bjs titia
PS um dos atores do kai po che (como é q pronuncia?)era a cara do Alberto Roberto, vcs notaram?
Namastê! Jol, seu texto prova que cinema é a maior diversão em qualquer língua. Mas a curiosidade de vocês, que está muito além das cenas de cinema, nos diverte e toca muito mais. Nesse blog mais do que caminhos, estamos assistindo um recorte da Índia na primeira década do século XXI, com os atrasos da organização social e política, seus balangandãs banhados a ouro, com turbantes e panos longos e pés no chão de terra, sua religiosidade e vacas. O blog é um patwork indiano feito de palavras, fotos, sabores, ações. É a janela da janela que vocês que estão aí, abrem pra nós. Estou adorando. Bj abençoado.
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