domingo, 3 de fevereiro de 2013

ANJUNA 2013: vinte anos depois.



Anjuna me fascina e assusta com sua comercialização caótica da estética cyber-hindu do psy-trance. Desde minha adolescência e até quem sabe antes eu fui seduzido por esse esoterismo barato. Eu cresci com os cheiros de incensos legais e ilegais, restaurantes vegetarianos à beira mar, os freaks que vêm em peregrinação de todas as partes do mundo e o trance. Sempre um trance moendo, vinte e quatro horas por dia. Essa minha intimidade com a logica interna do movimento transforma o meu olhar sobre esse lugar.
Em Goa, mais especificamente nas praias de Anjuna e Vagator, durante a década de oitenta um grupo de hippies músicos imigrantes dos estados unidos e da Europa, dos quais Goa Gil era o mais proeminente membro, entrou em contato com a música eletrônica e criou o que hoje é conhecido como Psy-Trance. Mais do que um estilo musical, isso marcou o nascimento de um movimento de contra-cultura que proliferou por todo o mundo. A cultura psy mescla elementos do Techno europeu com o espiritualismo da religião hindu e a moderna cultura psicodélica, além do que mais seus criadores desejarem se apropriar. Seu ethos é naturalmente favorável à pirataria, já que o trance nasceu e se desenvolveu como uma mistura constante de elementos roubados. Os tunes mesmo tinham esse caráter: fitas DAT que vinham da Europa eram mixadas em aparelhagens gambiárricas, tudo roubado, do beat ao mantra passando pelo hardware.
No Brasil como talvez muitos de vocês saibam, o trance é bastante popular. A medida que você passeia em festivais por todo o território nacional você certamente irá esbarrar com milhares, se não milhões de imagens de devas do panteão Hindu. Nada mais natural, uma vez que essa estética surgiu aqui na Índia. Mesmo assim eu sempre me perguntei por que elementos da espiritualidade nacional não tinham sido incorporados ao vocabulário místico do braço brasileiro da cena. Onde estava a macumba, os catimbós, o daime? E o candomblé, as pajelanças? Isso era uma peça que não se encaixava para mim, mas agora que cheguei à Índia, agora que cheguei em Goa, tudo começa a fazer um pouco mais de sentido.
É evidente que a falta de criatividade dos brasileiros ao não trazerem elementos próprios para uma subcultura mundial que adentra o seu território pode ser vista como cretina. No entanto, a profunda ligação do trance com a mentalidade Indiana, ou pelo menos com uma concepção estrangeira apropriada dela, é inegável. Esse roubo no entanto só se estende até o ponto onde os interessa, já que obviamente centenas de seus aspectos moralmente desconfortáveis e restritivos não foram aglutinados pelos chapados estrangeiros. Com certeza, pelo pouco que conheci desse país, essa zoeira dionisíaca jamais seria tolerada pelos membros mais tradicionais da sua sociedade. O que me faz me perguntar, com foi então que se abriu um espaço pra isso acontecer nascer aqui?
Obtive essa resposta quando cheguei em Goa e juntei algumas peças desse quebra-cabeças. Antes de vir para cá toda vez que dizíamos para alguém que ja tivesse visitado a Índia que viríamos a Goa eles nos alertavam: “Lá é muito bom, mas não é Índia. É outra coisa.” Não foi difícil entender do que todos estavam falando. Deixamos a movimentada Mumbai, florida dos mais diversos credos e culturas asiáticas, radicalmente misógina e caótica e em doze horas de estrada foi como se tivéssemos chegado a outro país. Nas pequenas ruas de Anjuna havia um numero bem maior de mulheres, uma grande maioria de ocidentais, não havia as mesmas restrições de vestimenta e muitas mulheres tomavam banho de biquíni na praia, algumas até fazendo top less. No hotel encontramos um outro nível de limpeza, incomparável com os modos de higiene que todos dizem encontrar no resto do pais. O clima também é mais descontraído aqui. As tradições convivem em mais harmonia com as diferenças. Goa é um pouco uma índia relaxada.  
Alguns dados geográficos e históricos: Goa é o menor estado da índia, uma unha de terra na beira do mar arábico na sua costa oeste. Desde meados do século dezesseis ela foi tomada pelos portugueses, tornando-se uma das diversas colônias de seu vasto império. Manteve-se assim até mil novecentos e sessenta quando aproveitou uma carona no movimento de libertação hindu e tornou-se parte da recém-formada republica. Por conta da presença portuguesa, este é o único lugar em todo a península em que a religiosidade católica convive com a maioria hindu em escala de semelhança. A despeito de todos os detratores do catolicismo isso criou uma atmosfera mais permissiva do que se encontra mesmo nos mais relaxados estados com inclinações hindus. Essa hiato cultural criou um ambiente perfeito para que depois da década de setenta uma série de estrangeiros encontrassem aqui um paraíso tropical no meio de uma cultura exótica e vibrante. Essa imigração marcou profundamente o lugar, transformando-o num receptivo balneário para as hordas de europeus e asiáticos que vem para cá todo ano.
Foi em Goa que os primeiros techno-xamans dos beats criaram o trance. Tudo se baseava na experiência transcendental do corpo em movimento, na dança de Shiva Natarajh destruindo o mundo, acabando com os ganas, os demônios do panteão Hindu. Entorpecido com a fumaça do Charas que vem pelo Chillum, tradicional instrumento indiano para fumar a inebriante cera preta, o deus Shiva se entorpece e dança. Uma espécie de Dioníso local, ele é o deus dos artistas e dos ascetas. Dos yoguis e dos meditadores. Dos dançarinos e dos atores.  Ou nas bençãos de Ganesa, Hermes dos trópicos, o mais sedutor dos deuses, a criança dourada que tudo dá com a cabeça de elefante. Ou nos braços de Rudrá, a Deusa-Mãe guerreira que protege a mente ferozmente de qualquer negatividade. Usando a química, o jejum e sua biologia para chegar aos deuses, milhares de jovens acharam nesse esquema uma saída para a secular sociedade ocidental. Foi nesse momento que a cultura hippie setentista derivou para os modernos freaks, uma espécie de Techno-hippiesmo cigano global de fim do século. Rasta-ravers pós-apocalípticos.
Quase trinta anos depois da revolução eu chego a Anjuna Beach, Goa. Tendo sido criado a base de prog-trance eu tinha que vir um dia aqui ver isso com meus próprios olhos. Meio como um muçulmano tem de ir à meca, mas de forma mais descontraída. De algumas maneira eu imaginava o que ia encontrar, mas a realidade é sempre um choque. Anjuna é a única prova concreta do que o correr do nosso tempo é capaz de fazer com a música eletrônica. Aqui não há mais espaço para especulação, o veredito está dado. Diferentemente dos grandes festivais do mundo que são eventos transitórios, Anjuna engessou-se como um lugar constantemente aprisionado entre a realidade mundana e a exceção da festa. Mais do que isso, esse ambiente, seus habitantes e sua geografia tiveram de buscar as formas necessárias para sobreviver ao agressivo mundo do capitalismo globalizante. Se apropriar do trance foi o caminho mais natural para Anjuna.
No dia em que chegamos aqui conversamos com um Sérvio bastante simpático de uns vinte e poucos anos que nos deu os informes sobre essa praia. “Essa é a pior praia em Goa, sinceramente eu não sei nem o que eu estou fazendo aqui, só sei que vou embora amanhã. Se vocês estão em lua de mel deveriam procurar Palolem ou Gokarna mais ao sul, é pra lá que os Hippies foram. Isso aqui só tem Russos porcos e esse barulho tocando o dia inteiro. Não existe paz aqui.” O cara tava meio afetado, além de odiar música eletrônica, mas ele tinha uma certa razão. Todo mundo aqui parece odiar os russos. Passar o dia inteiro sentado na praia nos rendeu uma série de encontros com jovens meninas que vem de toda parte da índia em busca de emprego na turística Goa. Elas queriam que nós comprássemos suas bugigangas, mas nós acabávamos só conversando com elas. “Os russos não são amigáveis, eles não ligam pra nossa cultura, vêm aqui e fazem o que querem” diziam as meninas, mais constatando do que reclamando.
Desde que cheguei percebi a presença massiva dos russos por aqui. Quase todos os flyers de festas que recebemos eram escritos em alfabeto romano e cirílico, alguns nem se preocupavam em colocar as informações em inglês. Eles andavam por toda parte, magros ou gordos, homens e mulheres, sempre estranhos, sempre dissociados, drogados e blasé. O russo aqui se apresenta como o arquétipo do turista-sombra do capitalismo global. Aquele sujeito que chega num lugar e vai embora sem deixar nem levar nada dentro de si. Aquele sujeito que usa o ambiente exótico como uma extensão do seu próprio território sem perceber-se presente em um ambiente cultural alheio. Essa aura dissociada é um sintoma obscuro da nossa sociedade e um dado relevante ao se analisar a decadência de Anjuna, antiga capital dos Techno-Hippies.
A verdade é que aqui nem festejar mais se festeja da mesma forma. Quando a coisa estava na mão dos hippies é que dava certo, eles sabiam o tipo de manobra necessária para apertar os botões das pessoas. Não é que não hajam festas, mas o que se observa aqui é uma sombra da potencialidade de uma rave. Está mais para uma Ibiza de pobre.
 Numa das primeiras festas em que fui na minha vida pude testemunhar uma das épicas apresentações do dinossauro da música eletrônica: Goa Gil. Ele tocou por doze horas sem parar um trance violentamente pesado, distorcido, poli-rítmico e surpreendente. Permeando as batidas uma textura macabra e gasta lhe rendia vida, um ruído carismático e misterioso que evoca uma futurista arqueologia sônica. A festa ainda não era um dos megaeventos que reuniria milhares de ravers em lugares quentes e horríveis como o Rio-Centro, difamando e marcando eternamente a cultura das festas no Brasil. Era uma pequena congregação, escondida num sitio no meio de uma floresta. O evento não havia sido divulgado exaustivamente, poucas pessoas sabiam dele. O organizador certamente teve um prejuízo, mas  quem se importa? Era Goa Gil trazendo sua macumba pro Brasil. Lá, no meio do mato, sob a copa das arvores, entre poucos e loucos: espontaneos, festivos, e extáticos, obscuros, soturnos e drogados. Uma tribo temporária em espontânea celebração religiosa, cheia de contradições, conflitos, idiossincrasia, luz e sombra. Nessas festas os anjos e os demônios eram convidados, todos  alimentavam-se de sonhada transcendência.
Uma imagem paradigmática da nossa civilização torna-se visível para mim através das fumaças e das bola de cristal de Anjuna. O arquétipo do dinheiro nivelador, a neutralidade financeira que engole toda e qualquer atividade humana transformando-a num produto. As raves foram um movimento cultural globalizado e como todo movimento ele chega ao seu fim tendo mudado de alguma forma a sociedade. A sede turística do estado de Goa foi voraz ao deglutir o neon e o anarquismo e transforma-lo em algo que a maior parte das pessoas aguenta com algumas coisinhas que possam levar pra casa, como um chillum, um vestidinho, uma estatueta do Ganesa ou qualquer outro “souvenir hippie”. Daí os russos, e as boates a beira mar com suborno em dia para poder fazer festa até cinco da manhã e “Come see my shop, i give you good price” na boca das hordas de moças vendendo tralha.  Assim como na distante década de sessenta quando os jovens tomaram as ruas do Haight-Ashbury criando o Hippie, o tempo dissolveu o que parecia uma utopia. Uma nova revolução nas rodas do destino e o novo torna-se o velho. Mas há pelo menos uma coisa que ainda não pode ser transformada em um produto: a emoção de estimular-se, a experiência de fazer parte, o amor pelo mistério. Isso não encontramos mais em Goa. 

10 comentários:

  1. João! Ufa! E eu q pensava q música eletrônica era só chata! Vivendo e aprendendo na Índia.
    O show do Goa Gil foi num sítio na serra? Petrópolis?
    E eu me lembrando de vc na sexta passada pq estava passando Tintim na TV... Santa ingenuidade.
    A propósito, vcs estão encontrando o q foram buscar aí?
    Bjs saudosos ao casal
    Titia

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    1. Música eletrônica é um bando de coisa, Titia, mas as vezes é chata demais mermo. O show foi num sitio em cachoeira de macacu se não me engano mas ja fazem anos...

      Olha que coicidencia, tenho visto o tintin muito aqui na india! Acho que ele é um sucesso aqui até hoje! Acho que estamos encontrando sim, mas se não estivessemos também inventariamos outros achados, heheheh.

      Beijinhos e saudade

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    2. Ei João adorei o texto, fui lendo e vivendo todas os seus sentimentos!
      Domitila

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  2. Ah, esqueci de perguntar: não sei se deixei passar, mas são vinte anos depois de quê?
    Outros beijos
    Titia

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    1. Vinte anos depois desse movimento ter rolado lá...

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  3. Namastê. Concordo com a Dadá. Eu, hein! Prog-trance? Acho que o garoto sérvio está certo, vão voando pra Palolem, Gorkarna. Procurem um jardim de lótus e curtam um bem-me-quer..., achem um quintal com pavões ou um zoo com tigre de bengala...essas pluralisces, multiétnicas e multilingues desse populoso lugar do mundo. Goa Gil-berto Gil. Esse prog-trance é muito complicado. Poderiam escrever sobre coisas mais normais?

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  4. muito elegante seu olhar sobre tanta decadência, jay, sempre tão bom te ler as usual, bjs da sua eterna manuca

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  5. Nossa... Esse bagulho é du bão... hehehehe E não se esqueça dos potinhos com um pouquinho de terra de cada lugar q vcs pisarem...

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  6. Foda o texto J. Muito consciente e cheio de belos insights.
    Abç, Marcos

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