segunda-feira, 11 de março de 2013

Turismo no Sri Lanka


Corvo

Viajar para mim deve ser um ato sagrado. Isso foi algo que se tornou claro pra mim a um bom tempo, bem antes desta que compartilhamos com vocês. Confesso que fui bastante influenciada por esse texto, muito embora as elaborações nele presentes ja existissem de forma inconsciente na minha cabeça bem antes de lê-lo. Usar a palavra sagrado pode trazer arrepios aos nossos leitores de inclinações mais seculares, portanto, vou tentar me explicar melhor. Sacrificar, em sua origem, é uma palavra que se significa "dedicar a algo". Quando digo que minhas viagens devem ser sagradas quero dizer que dedico-as a um sublime ato: o de conhecer-me, amadurecer, florescer, aprimorar. Não estou interessado nas paisagens que vou encontrar mais do que estou nas mudanças que esses encontros possam gerar em mim.

Residuos do Tsunami?

Hakim Bey, o auto-proclamado anarquista ontologico, propõe no texto supra-citado (para aqueles que tiveram preguiça de ler sequer seus primeiros paragrafos) que o turismo é uma postura que descende diretamente da guerra. A guerra, assim como a peregrinação e o comércio, foi um dos primeiros motivos que fez o homem deixar o seu lar em busca de diferentes territórios, ainda na epoca em que o conceito de turismo não tinha sido inventado. Tendo a concordar com essa visão radical quando vejo nossa pilhagens de fotos e a forma como os vilarejos pelos quais passamos foram feitos refém pelas hordas de ocidentais que chegam e vão todo dia desses pequenos e inóspitos lugares. É como se agora esses sitios só existissem para a apreciação dos que estão de passagem. Saqueamos distraídamente suas culturas e vidas locais. 

Vista sinistra de uma pedra que custava 30 Dolares pra subir.

Confesso que fujo do Turismo como o diabo foge da cruz. Ja o pratiquei por tempo o suficiente para saber que esse modelo de devir não satisfaz meus desejos mais profundos. No entanto, no mundo em que vivemos, essa postura se revela um verdadeiro desafio. Para lutar contra sua influência perene só posso contar com as armas da minha consciencia. Talvez o Sri Lanka tenha sido uma das minhas maiores batalhas.

O Sri Lanka é um país profundamente marcado por sua recente guerra civil. Assim como na India, há ali uma tensão constante entre etnias e culturas que expressam uma clara dificuldade de convivência. A ofensiva dos Tigres do Tamil, um grupo separatista da etnia Tâmil (povo Hindu natural do sul do subcontinente indiano) submeteu a nação a um periodo de vinte e tres anos de violência extrema. Não é preciso dizer que isso afastou grande parte dos turistas que se interessavam em conhecer essa exótica ilha. Ninguém quer que morte e miséria atrapalhem suas memórias de viagem, certo? Portanto desde 2009, quando a guerra acabou, o governo Cingalês vêm correndo contra o tempo. Na sua sede de adentrar o circuito turistico sul-asiático eles munem-se de tudo aquilo que uma nação desse porte precisa ter. Mas para uma pessoa que chega lá como eu, munido desse olhar critico, há algo de estranho nessa história. Uma sede meio imatura de agarrar e seduzir qualquer migalha de atenção que lhe for oferecida.

A deslumbrante vista do hotel mais imundo em que ja fiquei.




Ainda conseguia melhorar no amanhecer.

Não posso ser injusto, estamos tratando de um país com uma natureza estonteante. E olha que moro no Brasil, então essa não é uma declaração vazia. As pessoas são educadas e fomos sempre bem tratados, mesmo que os costumes sejam meio diferentes. O transporte também funciona, é relativamente limpo e confortável, apesar de lento. Sente-se que é um pais em acenção. Mesmo assim, a idéia de país que seus sujeitos insistiam em me vender não estava colando. Havia um discurso de unidade e compreensão entre seus diferentes povos, mas os mesmos sujeitos que tentavam nos vender a paz do Sri Lanka exibiam discursos sectários e de diferenciação étnica. Um senhor que nos contava a história do Sri Lanka em uma estranha situação a beira-rio explicou: "Agora eles estão colocando os Tamîs na jogada, eles botaram um no ministerio. Está certo, eles sabem fazer essa função melhor do que a gente".  Elevando mas separando ao mesmo tempo. As vezes a coisa era mais direta. Quando chegavamos numa cidade com um motorista Cingalês: "Vou levar vocês para um hotel que é um pouco mais caro. Os mais baratos são dos Tamil, eles são sujos". 

Com nosso amigo bigode, à beira rio.

Existe uma necessidade clara lá dentro de reerguer o pais, reestrutura-lo depois de um longo de tempo de fragmentação. Isso se reflete nos altos preços que se encontra por lá. O sudeste da Ásia é um lugar bastante barato para se viajar, pelo que entendi o Sri Lanka é um dos lugares mais caros que você vai encontrar por aqui. Com a recente criação de um numero enorme de taxas o custo de vida é alto para quem mora e quem visita. O pais é violentamente militarizado criando uma tensão constante. Eles praticamente nunca incomodam o turista, mas me parecem suspeitos.

Muitas vezes as diferenças culturais me cansaram. Não foi o lugar mais incrível, nem a coisa mais divertida ou facil estar no Sri Lanka. Mas seria muito facil se todos os lugares fossem a chapada diamantina, ou qualquer outro pico distante e misterioso. Pelas bordas das maquiagens que o departamento de turismo insiste em criar, pudemos contemplar mais um fascinante país. Cheio de contradições, delicias, estranhamentos e encontros.

Afeto pela bandeira.

Beijos a todos, e até breve.

4 comentários:

  1. Namastê. registro superbemescrito. fica difícil de comentar com palavras tão certas significando as ideias. choro de novo, então. bj.

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  2. Bom, com esse relato fico um pouco mais aliviada q vcs tenham trocado Rimbaud e sua temporada no inferno pelo Poe e seu corvo!
    As fotos estão lindas!
    Mais e outros bjs saudosos
    PS: já partimos do sirilanca e estamos no Vietnã, é isso?

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  3. FASCINANTE RELATO!!!
    AMO VCS

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